Zambelê - A Vida (8) Final

 Nas tardes douradas de Fortaleza, onde o sol do Ceará pinta o céu de laranja como tela de pintor sertanejo e o mar de Iracema murmura segredos pros casais que passeiam de mãos dadas, o destino – esse tecelão caprichoso de fios vermelhos e azuis – entrelaçou mais uma vez as raízes dos Medeiros à viola errante de Zé Violeiro. Anos haviam se passado desde o encanto imediato na feira poeirenta, onde Zequinha dedilhava o ar como cordas invisíveis e Maria Lúcia, com olhos de costureira que remendava almas em vez de só tecidos, vira no violeiro não um sucesso de palco, mas um porto seguro após tempestades de ausência. O namoro florescera devagar, como mandacaru na caatinga urbana: cafés na barraca dela, com Zé contando modas antigas entre o cheiro de linha e alfinetes; passeios no calçadão ao entardecer, onde o mar lambia os pés deles como bênção; e noites em que a viola calava as dúvidas, cantando "A saudade quando cansa de ficar presa na mão / Vira a dor de uma esperança que não dá no coração". Maria Lúcia, aos 35 anos agora, com Zequinha de 10, crescido em menino de olhos atentos que tocava as primeiras notas reais na viola velha do compadre, encontrara em Zé o pai que o filho merecia – e o homem que ela, viúva de fato, sonhara em remendar pra si. Seu drama era o de uma rede tecida com paciência: o medo de que a cidade grande, com seus ventos traiçoeiros, levasse o violeiro de volta pras feiras do Crato, deixando-a com o coração remendado mas rasgado de novo. Mas Zé, com o peito fundo de quem viu mundos rodarem, jurara na primeira lua cheia compartilhada: "Eu sou estrada, Lúcia, mas contigo eu paro – o Zambelê voa, mas o ninho é aqui".

O casamento veio como chuva boa em tempo de seca, marcado pra uma igreja simples no Bairro Meireles – São Pedro dos Pescadores, com sinos que ecoavam como zabumbas distantes e paredes caiadas cheirando a incenso e maresia. Foi uma cerimônia miúda, mas carregada de alma: convidados da feira, com saias floridas e chapéus de palha; Ribamar vindo de trem poeirento, o tio de Fátima agora avô de netos e guardião do sítio no Crato; e, claro, os Medeiros, essa família refundida como argila no torno. Fátima foi a madrinha, aos 38 anos, vestida num traje de linho branco que Mário trouxera de um porto em Recife – o marinheiro, de licença rara, ao lado dela com o braço forte como âncora, Zézinho de terninho apertado segurando o buquê como troféu. Maria de Fátima, a doutora de leis que defendia os fracos em audiências frias, sentia o peito inchar de um orgulho maternal por Zé, esse compadre que fora farol na escuridão da perda dos pais. Seu envolvimento era o de irmã mais velha tardia: ajudara na escolha do vestido de noiva, remendado por Lúcia com mãos trêmulas de emoção, e sussurrara pra ela na véspera, na cozinha do apartamento: "Ele é viola viva, Lúcia – cuida das cordas, que o som é pra sempre". Mas o drama pulsava quieto no olhar dela: ver Zé casar era celebrar a vida que seguia, mas cutucar a ferida da própria ausência – Mário embarcando de novo em duas semanas, Zézinho de volta ao internato, e o Cariri tão longe quanto o horizonte do mar. Lágrimas de alegria molhavam o véu que ela ajeitava na noiva, misturando-se ao riso: "Seja feliz como eu fui na roça, antes do voo".

José Augusto era o padrinho, vindo de Juazeiro com Rutinha e os cinco filhos – agora uma trupe barulhenta de meninos e meninas que corriam pela nave da igreja como cabras no quintal, o mais novo dormindo no colo da mãe. Aos 42 anos, mais largo que nunca, com a barba grisalha como a de Raimundo e as mãos calejadas que agora guiavam o sítio pra colheitas melhores, Augusto exibia o orgulho fraterno num sorriso que esticava as bochechas sulcadas pelo sol. Vestido de linho bege, passado a ferro por Rutinha, ele batia nas costas de Zé com palma de urso: "Compadre, você que cantava nossas dores agora casa a alegria – o pai e a mãe tão batendo palma no céu!". Seu drama era o de raiz fincada que sente o puxão das asas: o sítio prosperava, com mandioca que vendia nas feiras e uma caminhonete velha pra levar os filhos à escola, mas as visitas à capital rareavam, engolidas pela lida e pela saudade de Fatinha, que ligava menos, ocupada com petições e o mar. Ser padrinho era ponte sobre o abismo: ele carregava as alianças no bolso da camisa, sentindo o peso de Das Dores e Raimundo nelas, e no altar, quando o padre Seu João – um cearense de riso fácil – unia as mãos de Zé e Lúcia, Augusto piscava pro irmão postiço, murmurando: "Agora você tem ninho, Zé. Mas não esquece a roça no coração". Rutinha, ao lado dele, apertava o braço do marido, os olhos úmidos: "Olha a Fatinha ali, Pretinho – nossa mana, madrinha de todos nós".

A festa veio no quintal do apartamento de Fátima, transformado em barracão improvisado: mesas de plástico cobertas de toalhas xadrez, cheiro de baião de dois e peixe frito misturado ao perfume de jasmins do jardim; Zequinha, o menino mirrado agora tocador mirim, dedilhando uma viola de brinquedo ao lado do padrasto, chamando risos como chamara atenção na feira. Zé Violeiro, de terno simples e chapéu na cabeça, dançava com Lúcia um forró lento, a viola passada pra um feirante amigo, enquanto Fátima e Augusto trocavam olhares por cima das cabeças – ela, a advogada de saltos que pisavam tribunais, ele, o plantador de sonhos na terra vermelha. "A gente se espalhou, mana, mas o laço é de cipó – aperta, mas não quebra", disse Augusto, puxando-a pra uma dança desajeitada, as mãos calejadas nas dela macias. Fátima assentiu, o peito em nó: "Você é o pilar, Pretinho. Eu voo, mas volto no refrão". Mário, quieto no canto com uma cachaça na mão, observava com olhos de quem sabe de ausências, enquanto Zézinho corria com os primos, gritando "Tio Zé, canta o mar pro Zequinha!".

E assim, no meio do rodar do mundo – com o mar ao fundo murmurando "o mar, o mar, o mar" –, o casamento selava não só Zé e Lúcia, mas o emaranhado das sagas: o violeiro encontrando porto na costureira, o discípulo ganhando mestre de verdade, e os Medeiros, espalhados entre roça e ondas, tecendo uma família maior, onde a saudade reza mas a alegria dança. Zé, no fim da noite, subiu numa cadeira com a viola recuperada e cantou pros noivos e pros fantasmas queridos: "Maria na beira da praia, viu a saudade chegar / O mar molhando a saia e os olhos molhando o mar". E todos – Fátima com lágrimas de madrinha, Augusto com riso de padrinho – bateram palmas, sabendo que o verso, como a vida, nunca seca de vez.

Nas noites serenas de Fortaleza, onde o mar de Iracema sussurra como viola desafinada e as luzes do calçadão piscam memórias em código de estrelas, o tempo – esse rodar impiedoso de rodas enferrujadas – tecera mais um ciclo na tapeçaria dos Medeiros e seus ecos. Trinta anos haviam se escoado desde o casamento na igreja de São Pedro, como rio que corre sem pressa mas leva tudo: Zé Violeiro, o compadre errante de peito fundo e modas eternas, partira quieto aos 82 anos, numa madrugada de lua minguante, a viola no colo e um sorriso de quem sonha o caminho de voltar. "O Zambelê voou de vez, Lúcia, mas as cordas ficam pra vocês", murmurara ele na cama de lençóis gastos, os olhos fixos no horizonte invisível do quarto, deixando pra trás uma casa cheia de histórias remendadas e um filho que herdara não só o nome, mas a fome de contar. Zequinha, aos 30, virava o escritor José Augusto de Souza – um homem magro e atento como o menino mirrado da feira, com cabelos pretos salpicados de fios brancos precoces e olhos que devoravam o mundo como páginas virgens. Formado em letras na UFC, onde as aulas de literatura nordestina o faziam lembrar o dedilhar imaginário na areia, ele trocara a costura da mãe pela pena afiada, escrevendo contos pra jornais da capital que ecoavam o sotaque do Cariri. Mas o livro que o consagrou – "Memórias de meu pai, Zé Violeiro", agora já uma saudade impressa em papel amarelado e capa de couro sintético – era o coração exposto: páginas que teciam as feiras de Iracema com as de Juazeiro, o encanto imediato na barraca de Maria Lúcia com o luto dos Medeiros, as modas do pai entrelaçadas às dores de Das Dores e Raimundo. "Meu pai não cantava só versos; ele era o refrão da gente humilde, o eco que não seca na lua cheia", escrevera ele na dedicatória, as palavras sangrando como enxada na terra dura. O drama do escritor era o de um filho que enterra o pai duas vezes: na cova simples do cemitério da Praia do Futuro, sob um juazeiro transplantado, e nas letras que o imortalizavam, mas doíam como sal na ferida fresca. José Augusto de Souza lançava o livro numa noite de autógrafos no centro de livros da Avenida Beira-Mar, com Fátima – agora aos 68 anos, grisalha e ereta como vara de juiz aposentada – na primeira fila, os olhos úmidos de orgulho maternal postiço, Mário ao lado dela com a mão calejada no joelho, Zézinho – doutor em oceanografia, casado e pai – batendo palmas roucas como o avô.Maria Lúcia de Souza, a viúva de Zé Violeiro, aos 65 anos, com as mãos ainda ágeis de alfinetes mas marcadas pelo tempo como retalhos costurados, se abraçava à Maria de Fátima ao ler o livro do filho – um gesto que era damasco e adeus, no quintal do apartamento onde o mar murmurava ao fundo como testemunha. Sentadas na rede de cipós sintéticos, sob o flamboyant que Zé plantara com as próprias mãos, Lúcia folheava as páginas com dedos tremendo, o cheiro de tinta fresca misturando-se ao de jasmim noturno: "Olha aqui, Fatinha, ele escreveu do dia que você foi madrinha – 'A doutora dos Medeiros, com olhos de pomba que voou da roça pro sal'. Seu Zé tá vivo nessas palavras, né? Ele que me ensinou a remendar corações, e agora o menino remenda o dele". Fátima, a defensora que salvara tantos mas não se salvara da melancolia das ondas, apertava o abraço com força de cipó, as lágrimas escorrendo quentes pela face enrugada: "Ele é o verso final, Lúcia – o Pretinho meu irmão plantou a roça, eu plantei leis, e o Zequinha plantou o pai em livro. Mas a saudade... ah, a saudade reza no mar, molhando a saia e os olhos". Seu drama era o de uma ponte que une gerações: Augusto, agora avô no Crato, lera o livro em voz alta pros netos na varanda de taipa, rindo das modas que ecoavam as dele; Ribamar, o tio eterno, guardara um exemplar no sítio como relíquia; e Zézinho, o neto do mar, citava trechos em aulas sobre ondas culturais. Mas no abraço das duas viúvas – de maridos que foram faróis em tempestades –, o vazio do Zé pulsava como refrão: o violeiro que unira feiras e famílias, agora saudade em tinta, mas vivo no dedilhar que Zequinha imitara menino.Fim.

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