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Zambelê - A Vida (8) Final

  Nas tardes douradas de Fortaleza, onde o sol do Ceará pinta o céu de laranja como tela de pintor sertanejo e o mar de Iracema murmura segredos pros casais que passeiam de mãos dadas, o destino – esse tecelão caprichoso de fios vermelhos e azuis – entrelaçou mais uma vez as raízes dos Medeiros à viola errante de Zé Violeiro. Anos haviam se passado desde o encanto imediato na feira poeirenta, onde Zequinha dedilhava o ar como cordas invisíveis e Maria Lúcia, com olhos de costureira que remendava almas em vez de só tecidos, vira no violeiro não um sucesso de palco, mas um porto seguro após tempestades de ausência. O namoro florescera devagar, como mandacaru na caatinga urbana: cafés na barraca dela, com Zé contando modas antigas entre o cheiro de linha e alfinetes; passeios no calçadão ao entardecer, onde o mar lambia os pés deles como bênção; e noites em que a viola calava as dúvidas, cantando "A saudade quando cansa de ficar presa na mão / Vira a dor de uma esperança que não dá n...

Zambelê - A Vida (7)

  Nas tardes crepusculares de Fortaleza, quando o sol se deita no colo do Atlântico como amante exausto e o vento salgado carrega o cheiro de conchas e promessas quebradas, Maria de Fátima caminhava pela Praia de Iracema com o vestido longo ondulando como bandeira de rendição. Aos 35 anos agora, realizada como quem colhe frutos de uma árvore plantada em solo infértil, ela via a família estabelecida: o apartamento no Meireles, com paredes pintadas de azul-mar e fotos emolduradas dos pais sob o juazeiro; a defensoria pública onde defendia os desvalidos com a garra de Raimundo e a ternura de Das Dores; Mário, o marinheiro de mãos calejadas pelo leme, que voltava de seis em seis meses com baús de histórias de portos longínquos e um colar de corais pro pescoço dela. Zé Augusto Sobrinho, o único filho – Zézinho, de 8 anos, com os cachos rebeldes do tio e o riso que ecoava as modas da roça –, estudava num colégio interno no centro, um internato de jesuítas que prometia livros além dos son...

Zambelê - A Vida (6)

  Nas noites de Fortaleza, onde o mar Atlântico ruge como zabumba em festa distante e as luzes da avenida Beira-Mar piscam como estrelas caídas no asfalto, Zé Violeiro afinava a viola na varanda apertada de um sobrado alugado no Meireles, os dedos calejados traçando cordas que gemiam saudades do sertão. A cidade grande o engolira como onda traiçoeira, mas ele, teimoso como cacto na areia, carregava o eco das feiras de Juazeiro nos ombros encurvados. E numa tarde de chuva fina, que lavava o concreto como lágrimas de arrependido, ele dedilhava os versos que pareciam escritos pro destino de Maria de Fátima: "Veio o dia, veio a noite, a luz do sol virou luar / E nos olhos de Maria a tristeza foi rezar, e foi rezar." Cantava baixo, o refrão se misturando ao barulho dos ônibus na rua, porque Zé via nos olhos dela – agora mulher de 28 anos, com o cabelo solto como ondas do mar que ela aprendera a amar e temer – a mesma pomba branca de outrora, voando alto mas caindo na areia da memó...

Zambelê - A Vida (5)

  Nas trilhas sinuosas do tempo, onde o sertão se curva como o dorso de um boi cansado e as modas antigas se entrelaçam com o rodar impiedoso do mundo, Zé Violeiro cavalgava sua viola como um corcel rebelde, parando nas feiras de Juazeiro e Crato pra dedilhar versos que pareciam saídos do coração da caatinga. Agora, compadre de luto duplo, ele visitava os Medeiros menos, mas com o peito mais cheio – as histórias deles, tecidas de perda e teimosia, viravam combustível pras canções que ecoavam nos barracões poeirentos. E numa noite de lua crescente, sob o flamboyant que sombreava a varanda da casa, ele soltou os versos como pássaros libertos: "Zambelê partiu pensando, no caminho de voltar / Mas o mundo foi rodando e parou em outro lugar." Cantava com a voz rouca de quem viu rodas girarem sem piedade, os olhos fixos nos filhos de Das Dores e Raimundo, que cresciam como mandacarus fiéis: tortos pelo vento, mas eretos pro céu. Porque o mundo, ah, o mundo rodava sem freio, levando ...

Zambelê - A Vida (4)

  Nas madrugadas que se seguem ao luto, quando o sertão acorda com o canto rouco dos sabiás e o orvalho que beija a terra como lágrima esquecida, Zé Violeiro sentava-se no degrau da varanda dos Medeiros, a viola muda no colo, os olhos fixos no horizonte onde o sol nascia devagar, como quem hesita em iluminar feridas frescas. Os versos vinham a ele como vento de caatinga, carregados de poeira e verdade: "A saudade quando cansa de ficar presa na mão / Vira a dor de uma esperança que não dá no coração." Cantava baixinho, só pra si, porque as palavras, agora, pareciam pedras no peito – pesadas demais pra soltar em voz alta, leves demais pra afundar de vez. E assim, entre o conformar e o quebrar, os Medeiros iam tecendo sua rede de sobrevivência, fios tortos de ausência que Das Dores deixara como herança: uma saudade que não matava, mas ensinava a viver com o buraco no meio. José Raimundo, o viúvo de ombros caídos como galhos de um ipê seco, ia se conformando com a saudade de sua...

Zambelê - A Vida (3)

Nas noites do sertão, quando o céu se arma de estrelas como facas afiadas e o vento sussurra segredos pelos buracos da taipa, Zé Violeiro sentava-se na varanda dos Medeiros com a viola no colo, os dedos traçando cordas como veias expostas. A família, agora um pouco mais sua, escutava em silêncio os versos que vinham como profecia disfarçada de canção: "Vou contar pra quem não sabe / Que o passado nunca encerra / A maior distância cabe / Em sete palmos de terra, de terra." Cantava baixo, o refrão ecoando como um lamento de riacho seco, porque Zé, com seu peito fundo de estrada, farejava as sombras antes que elas caíssem. E caíram, pesadas como enxurrada de verão, sobre os Medeiros – um baque que rachou o chão da casa como a terra em tempo de estiagem, deixando sulcos que o tempo nunca apagara. Foi numa madrugada de lua minguante, daquelas que tingem o mundo de um cinza sujo, que o destino, caprichoso como um cão raivoso, levou Maria das Dores. O casal, depois de um dia de lida...

Zambelê - A vida (2)

  Nas estradas poeirentas que ligavam as feiras de Juazeiro ao Crato, onde o vento carregava o cheiro de terra úmida após uma chuva fingida e o eco de modas antigas, Zé Violeiro seguia seu ofício de tecelão de histórias. Agora, não mais um estranho de viola nas costas, mas compadre de batismo – um título que José Raimundo e Maria das Dores lhe deram numa noite de São João, com fogueira crepitante e cachaça caseira correndo solta. "Você é da família agora, Seu Zé. Padrinho das dores e das alegrias", dissera Raimundo, batendo nas costas do violeiro com uma palma calejada, enquanto Maria das Dores assentia, os olhos úmidos de uma gratidão que não cabia em palavras. Entre uma visita e outra – um almoço de feijão com torresmo na casa dos Medeiros, uma prosa à beira do curral ao entardecer –, Zé ia desfiando o novelo da vida deles, como quem puxa o fio de uma rede velha para ver os buracos e as tramas firmes. E os versos vinham à boca, como se a viola soubesse antes dele: "Já ...