Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 4 - Reginaldo e Alberto, a consumação desafiadora dos casamentos.
A Chama Inextinta nas Margens do Paraíba
As águas do rio Paraíba do Sul refletiam o céu carregado, testemunhas silenciosas de uma despedida que rasgava as almas de Alberto e Reginaldo. Sob a sombra de um ipê, os dois amantes se encaravam, os olhos marejados, sabendo que o destino os arrancava um do outro. O ar estava pesado, carregado de promessas e despedidas.— Meu pai quer negros bonitos pra exibir como prêmio — disse Reginaldo, a voz embargada, os punhos cerrados. — Uma traição ao tio Teobaldo, à memória dele! E teu sogro, Alberto... ele te trata como propriedade, como se fosses um touro de raça. Teu pai te vendeu por orgulho! As forças que nos oprimem são maiores que nós.Alberto, com lágrimas escorrendo pelo rosto, segurou as mãos de Reginaldo, apertando-as com força, como se pudesse segurar o tempo.— Levarei-te no meu peito pra sempre, Reginaldo — sussurrou, a voz quebrada. — Eu me juntarei a ti, seja no presente, no futuro, ou quando não tivermos mais corpos físicos. Mas, por ora... temos que consumar esses casamentos que nos impuseram.Reginaldo puxou Alberto para um último abraço, os corpos tremendo de emoção.— Sempre te amarei, Alberto — murmurou, antes de se afastar, cada passo um peso que o levava de volta à senzala, onde Carolina o esperava.
Alberto ficou ali, olhando o rio, até que a escuridão engoliu a silhueta de Reginaldo. Ele sabia que, naquela noite, ambos enfrentariam o fardo de suas núpcias, separados por muros de pedra e de destino.
Reginaldo consuma o casamento, surgem os gêmeos.
Reginaldo consuma o casamento, surgem os gêmeos.
Na senzala, sob a luz trêmula das tochas, Reginaldo e Carolina consumavam sua noite de núpcias. O chão de terra batida, os roncos dos outros escravizados e o cheiro de suor impregnado no ar contrastavam com a ternura com que Reginaldo acariciava a esposa. Ele a tratava com cuidado, quase como se temesse machucá-la, mas seus olhos traiam a dor que carregava. Quando o ato terminou, ele se afastou, o peito apertado, e deixou escapar um soluço.— Me entenda, Carolina — pediu, a voz rouca, evitando o olhar dela. — Me deixa um pouco sozinho. Cumpri minha tarefa. Por favor... tu não merece ter um sujo como eu na tua cama. Sou um erro da natureza.Carolina, confusa, estendeu a mão para tocá-lo, mas parou ao ver as lágrimas que ele tentava esconder.— Reginaldo, o que te aflige? — perguntou, a voz doce, mas ele apenas balançou a cabeça, virando-se para a parede.Ela não entendia. Como podia um homem chorar após um momento tão intenso? Nos meses que se seguiram, Reginaldo repetia o mesmo ritual: consumava o casamento com Carolina, mas depois se afastava, chorando em silêncio. Apesar da tristeza que a consumia, Carolina engravidou, e logo nasceram os gêmeos bivitelinos, Pedrinho e Janaína, duas crianças de beleza estonteante que enchiam a senzala de orgulho. Para Quincas, o feitor, eram “negrinhos perfeitos, prontos pra trabalhar”. Para Carolina, eram a razão de sua existência. Para Reginaldo, eram um lembrete agridoce de um dever cumprido, mas de um coração preso a outro.
O casamento de Alberto é consumado às duras penas.
O casamento de Alberto é consumado às duras penas.
Na casa grande, a noite de núpcias de Alberto e Yolanda transcorria em um cenário oposto, mas igualmente carregado de melancolia. O quarto, adornado com cortinas de seda e velas perfumadas, era um palco de luxo que não combinava com o vazio no peito de Alberto. Yolanda, com sua delicadeza de rosa branca, entregava-se ao marido com uma mistura de timidez e fascínio pelo seu porte atlético. Mas Alberto, mesmo enquanto a amava, sentia-se um estranho em sua própria pele. Quando terminou, ele se afastou, cobrindo o rosto com as mãos, as lágrimas escapando apesar de sua luta para contê-las.— Yolandinha, Yolanda... — murmurou, a voz tremendo. — És como uma rosa branca, delicada, mas eu retirei forças que nem conhecia de dentro de mim pra te fazer mulher. Eu te farei feliz, mesmo sabendo que teu pai me despreza e que eu me sinto um erro que Deus e meu pai tentam consertar.Yolanda, deitada ao seu lado, tocou seu ombro com hesitação. Ela sentia a tristeza do marido, mas, como Carolina, não compreendia sua origem. Resignada, ela aceitava que Alberto a satisfazia como mulher, mesmo que o fizesse com o esforço de um Hércules contrariado. Nos meses seguintes, Yolanda engravidou, e nasceu Murilo, o primogênito que Henrique de Bragança tanto desejava. O conde, exultante, viu no menino a promessa de sua linhagem perpetuada, mas não escondia seu desprezo por Alberto.— Um reprodutor bruto, isso é o que és — dizia Henrique, com um sorriso frio. — O sangue dos Braganças se mistura ao teu apenas por necessidade. Mas não te iludas, rapaz. Nunca serás um de nós.Para reforçar seu domínio, Henrique exigiu que Alberto abandonasse o sobrenome Buarque, adotando o Bragança. Frederico, cego pela ambição, consentiu, sem perceber que seu filho era apenas uma ponte para a glória de outra família. Em Lisboa, onde Henrique planejava enviar o casal, os Buarque continuariam a ser vistos como degredados, e o porte físico de Alberto, tão admirado na fazenda, o denunciava como um “caipira” aos olhos da nobreza.
Frederico percebe seus erros.
Frederico percebe seus erros.
Frederico, porém, começou a perceber o erro de suas escolhas. Sem um herdeiro varão na fazenda, a partida de Alberto para Lisboa deixaria a Santo André sem futuro. Ele só concordou com a viagem após o nascimento de um segundo filho, Francisco, um nome simples que talvez ecoasse o patriarca Augusto Pereira ou, quem sabe, uma admissão tardia de culpa. Mas Frederico, agora envelhecido, também se permitiu um novo amor. Ele se encantou por Iracema, uma jovem de sangue indígena e português, uma “filha da terra” que trouxe calor à casa grande. A escolha, porém, revoltou Henrique, que via na união um insulto à sua linhagem.— Um degredado com uma selvagem! — esbravejou o conde, cuspindo as palavras. — Frederico, tu e teu filho são uma vergonha que os Braganças carregam como um fardo!Enquanto isso, na senzala, Reginaldo criava Pedrinho e Janaína com carinho, mas sua alma permanecia às margens do Paraíba, onde jurara amar Alberto para sempre. Na casa grande, Alberto, agora pai de Murilo e Francisco, preparava-se para partir para Lisboa, carregando o peso de um nome que não era seu e um amor que nunca poderia viver.Sob o céu do Vale do Paraíba, as chamas do amor entre Alberto e Reginaldo continuavam a arder, escondidas, mas inextinguíveis. E, enquanto as tramas do destino os separavam, as sementes de rebeldia começavam a germinar nos corações de seus filhos, que um dia poderiam desafiar o mundo que os oprimia.
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