Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 5 - Reginaldo deixa o mundo e Alberto mergulha no luto calado e parte com a família para Lisboa

 O Fim de um Ciclo às Margens do Paraíba

  O céu sobre a Fazenda Santo André parecia chorar, com nuvens pesadas despejando uma chuva fina que molhava os cafezais e as almas de seus habitantes. Na casa grande, Frederico segurava o pequeno Francisco, recém-nascido, cujo nome simples ecoava, talvez, uma tentativa de redenção ou um aceno tardio ao legado dos Pereira. Ao seu lado, Iracema, com sua beleza de filha da terra, aninhava o menino com o carinho de uma mãe, mesmo sendo apenas sua madrasta. Do outro lado do oceano, Henrique de Bragança, com seu desprezo aristocrático, já planejava moldar o futuro de Murilo, o primogênito de Alberto, mas o destino, como sempre, tinha outros planos.   Na senzala, a notícia do nascimento de Teobaldo Neto, o terceiro filho de Reginaldo e Carolina, trouxe um breve momento de alegria. O menino, irmão de Janaína e Pedrinho, era forte e belo como o pai, mas sua chegada foi ofuscada por uma tragédia que abalaria a fazenda. Reginaldo, cujo coração carregava o peso de uma vida de mentiras e um amor proibido, não suportou mais o conflito que o consumia.
   Na calada da noite, enquanto a senzala dormia, Reginaldo correu pelos cafezais, os pés descalços cortados pelas pedras, o peito explodindo de angústia. “Não consigo! Não quero mais mentir!” gritava para si mesmo, as palavras engolidas pelo vento. Ele chegou às margens do rio Paraíba do Sul, o mesmo rio que testemunhara seus momentos mais felizes com Alberto. Olhando as águas escuras, ele viu o reflexo de um homem preso entre o dever e o desejo, entre a senzala e a liberdade que nunca teve. Com um último suspiro, mergulhou no rio e desapareceu nas correntezas.   Os pretos da senzala, ao descobrirem o ocorrido, sussurravam entre si que Reginaldo fora arrebatado por Logun Edé, o orixá pescador, cuja presença era celebrada nas festas secretas da senzala. Para eles, era uma partida mística, um escape para um mundo onde Reginaldo poderia ser livre. Carolina, porém, ficou devastada. Com três filhos nos braços, ela chorava a perda do marido que, apesar de distante, sempre a tratara com ternura. Ela nunca soube da verdade que Reginaldo escondia, do amor que o consumia, e talvez fosse melhor assim. Carolina, com sua força silenciosa, prometeu criar Pedrinho, Janaína e Teobaldo Neto com o mesmo carinho que Reginaldo lhe oferecera.

Alberto e o luto que ficava guardado. A dor de perder seu grande amor.
A notícia da morte de Reginaldo chegou a Alberto como um golpe final. Ele estava na casa grande, segurando Francisco, quando Quincas, o feitor, trouxe a novidade. O mundo pareceu desabar. Alberto caiu de joelhos, o pequeno Francisco ainda em seus braços, e deixou as lágrimas correrem livremente. O amor da sua vida, o homem que prometera carregar no peito para sempre, se fora. Ele não podia gritar, não podia confessar a dor que sentia, mas cada fibra de seu ser parecia se despedaçar.— Reginaldo... — murmurou, a voz quase inaudível, enquanto apertava Francisco contra o peito.Frederico, vendo o sofrimento do filho, aproximou-se, hesitante. Pela primeira vez, o velho fazendeiro parecia enxergar além de sua ambição.— Alberto, meu filho... — começou, a voz trêmula. — Cuide-se na corte. Desculpe este velho pai por te rebaixar a um mero reprodutor, quase um escravo de Dom Henrique. Jamais me perdoarei.Alberto ergueu os olhos, ainda marejados, mas com uma determinação que Frederico nunca vira antes. Ele entregou Francisco a Iracema, que o recebeu com um sorriso gentil, e se levantou.— Pai, o que está feito, está feito — disse, a voz firme apesar da dor. — Murilo será meu espelho, por mais que Dom Henrique queira moldá-lo. Eu superei este rincão selvagem e saberei lidar com os olhares tortos da corte. Murilo terá meu porte físico, pra desespero do miserável do meu sogro.
Frederico baixou a cabeça, incapaz de responder. Pela primeira vez, sentia o peso de suas escolhas, mas era tarde demais para consertá-las.

A partida de Alberto, Yolanda e Murilinho para a corte de Lisboa. Francisquinho fica com Frederico.

No porto do Rio, a carruagem dos Bragança desembarcava o jovem casal e o herdeiro, que rumariam em navio para Lisboa. Yolanda, com Murilo ao seu lado, já um menino andante de olhos curiosos, despedia-se da cidade natal  com uma mistura de ansiedade e resignação. Alberto, ao embarcar, olhou para trás uma última vez, como se pudesse ver o Vale do Paraíba, o rio, a fazenda, e o eco de Reginaldo. Dentro de si, ele carregava uma represa de emoções, com um dique frágil que ameaçava ceder, mas também uma força que ele próprio desconhecia. Ele seria mais que o “reprodutor” de Henrique, mais que o “escravo branco” da corte. Ele seria Alberto, o homem que amara Reginaldo e que, por isso, sabia o valor da liberdade, mesmo que ela existisse apenas em seu coração.Enquanto a carruagem se afastava, levando Alberto, Yolanda e Murilo para Lisboa, a Fazenda Santo André ficava para trás, agora sob os cuidados de Frederico, Iracema e o pequeno Francisco. Na senzala, Carolina criava seus três filhos, sem saber que Teobaldo Neto, com o nome do avô, carregaria a chama de rebeldia que Reginaldo deixara. E, no rio Paraíba, as águas continuavam a correr, levando consigo os segredos de um amor que desafiara as crueldades do século XIX.

Fim da Primeira ParteA trama de erros e destinos traçados pelas teias de poder deixava marcas profundas. Dois homens, Alberto e Reginaldo, enfrentaram a realidade brutal de um mundo que os separava por senzala e corte, por dever e desejo. Mas, nas sementes que plantaram — em Francisco, Murilo, Pedrinho, Janaína e Teobaldo Neto —, a esperança de um futuro diferente começava a germinar, pronta para florescer na próxima geração.
A saga de Reginaldo e Alberto chegava ao seu triste final e abre agora caminho para a história de Francisco e Teobaldo.


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