Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 8 - O final. As despedidas e o encontro com o destino.

 O Último Mergulho no Paraíba

O sol poente tingia de vermelho as águas do rio Paraíba do Sul, como se o próprio céu reconhecesse o peso do momento. Alberto, agora viúvo de Yolanda, voltara à Fazenda Santo André não apenas para estar ao lado de Frederico, mas para responder a um chamado mais profundo. A fazenda, com seus cafezais e memórias, era seu lar, mas o rio... o rio parecia clamar por ele, sussurrando o nome de Reginaldo, o amor que nunca deixou de pulsar em seu peito.Uma tarde, enquanto caminhava pelas margens do Paraíba, Alberto avistou Francisco e Teobaldo juntos, abraçados sob o velho ipê. A cena o atingiu como um raio. Nos olhos verdes de Francisco e no brilho castanho de Teobaldo, ele viu o reflexo de sua própria juventude, dos encontros furtivos com Reginaldo, dos beijos roubados que desafiavam o mundo. A emoção o sufocou, e ele caiu de joelhos, as lágrimas escorrendo enquanto jogava um cravo vermelho nas águas.— Me espere, meu grande amor — sussurrou, a voz embargada. — Eu vou pra junto de ti.O cravo flutuou por um instante antes de ser levado pela correnteza, como uma promessa selada pelo rio.
O ano seguinte trouxe mais perdas. Iracema, a mulher que trouxera luz à vida de Frederico, partiu para a eternidade, levada por uma severa pneumonia. Frederico, já fragilizado pelos anos e pelos arrependimentos, não suportou o golpe. Diante do corpo da amada, ele chorou como um menino, a paixão por ela consumindo o que restava de sua força. “Minha Iracema, minha filha da terra...” murmurava, segurando a mão fria dela. Um mês depois, Frederico murchou, como uma árvore que perde a vontade de crescer. Ele morreu em silêncio, o luto o levava e acabava deixando a fazenda órfã de sua presença.Alberto, com a alma em frangalhos, carregou o caixão do pai, cada passo um peso de memórias. Frederico, com seus erros e acertos, moldara quem ele era. A ambição cega do pai o ferira, mas a redenção tardia o ensinara a perdoar. Enquanto a terra cobria o túmulo de Frederico, Alberto sentia que, pela primeira vez, estava verdadeiramente livre — mas a liberdade trazia um vazio que só o rio podia preencher.
Na casa grande, agora silenciosa sem Frederico e Iracema, Alberto chamou Francisco para uma conversa. Teobaldo, sempre ao lado do amigo, ficou na varanda, respeitando o momento. Alberto olhou nos olhos do filho, vendo neles a mesma coragem que ele e Reginaldo um dia tiveram.— Francisco — começou, a voz firme, mas carregada de emoção. — Venda esta fazenda. Pegue o que ela vale e parta com Teobaldo pra Ilha de Paquetá. Lá é isolado, um canto onde vocês podem viver o amor de vocês sem serem julgados. Não erra com ele, como eu errei com Reginaldo.Francisco arregalou os olhos, o coração disparado.— Pai... o senhor sabe de nós?Alberto sorriu, um sorriso triste, mas cheio de amor.— Sei de nós quatro, Francisco. Nós quatro.Ele se levantou, beijou a testa do filho e deu-lhe a bênção, um gesto que parecia carregar o peso de gerações.
Sem dizer mais nada, Alberto caminhou até as margens do Paraíba do Sul. Sob o olhar do ipê, ele tirou as vestes, deixando-as dobradas na margem, como um adeus ao mundo que o prendera. Com um último olhar para o céu, mergulhou nas águas escuras e desapareceu, levado pela correnteza que, anos antes, levara Reginaldo.Francisco, que o seguira a distância, não gritou, não se desesperou. Em vez disso, ele sorriu, as lágrimas misturando-se ao sorriso. Havia beleza na escolha de Alberto, na coragem de buscar Reginaldo, onde quer que ele estivesse. Teobaldo se aproximou, segurando a mão de Francisco, e os dois ficaram ali, olhando o rio, sentindo a presença dos pais que, finalmente, estavam juntos.— Nossos pais agora estão unidos, eles nos antecederam, agora eu tenho certeza disto! — disse Francisco, a voz serena. — E nós vamos nos unir, Teobaldo.Teobaldo apertou sua mão, os olhos brilhando com determinação.— Pra sempre, Chiquinho, nada nos impede agora.
Meses depois, a Fazenda Santo André foi vendida. Francisco e Teobaldo, com o dinheiro da venda, partiram para a Ilha de Paquetá, um refúgio isolado onde o mundo parecia menos cruel. Lá, longe dos olhares da corte e das sombras da senzala, eles construíram uma vida juntos, simples, mas cheia de amor. A ilha, com suas praias e silêncios, tornou-se o palco de um romance que, embora agridoce, era a redenção de duas gerações marcadas por luta e sacrifício.Nas margens do Paraíba do Sul, o ipê continuava a florescer, suas raízes bebendo as águas que levaram Alberto e Reginaldo. E, em algum lugar além do tempo, talvez eles sorrissem, vendo Francisco e Teobaldo viverem o amor que eles nunca puderam. A história de duas gerações de homens, entrelaçada por erros, paixões e redenções, encontrava, enfim, seu desfecho — não perfeito, mas verdadeiro.Fim.

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