Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 6 - A segunda geração, o começo da saga de Francisco e Teobaldo

 As Teias do Destino na Fazenda Santo André

   O tempo, como o vento que varria os cafezais do Vale do Paraíba, passou implacável sobre a Fazenda Santo André. Frederico, agora envelhecido, com rugas que contavam histórias de ambição e arrependimento, tornava-se cada vez mais a sombra de seu pai, Augusto Pereira. A perda de Alberto, humilhado como um “reprodutor” na corte de Lisboa, e a tragédia de Reginaldo, cujo suicídio ainda ecoava em sua consciência, haviam quebrado o orgulho que outrora o cegara. Ele via agora que o castigo da Inquisição, que seu pai escapara, manifestara-se de outra forma: o desprezo social da corte, que nunca aceitara os Buarque, por mais que Frederico tentasse polir seu nome com títulos e casamentos.    Sentado na varanda da casa grande, Frederico olhava para o horizonte, onde os cafezais dançavam sob a brisa. Em suas mãos, segurava um retrato desbotado de Augusto, tirado anos antes. “Ah, papai, papai, como eu te queria aqui, pra pedir-te desculpas, de joelhos!” murmurou, a voz embargada. Ele havia renegado o nome Pereira, mas agora, desiludido, decidira abraçá-lo. Em um ato de redenção, mandou batizar seu neto Francisco, deixado por Alberto, como Francisco Pereira. O sobrenome, outrora motivo de vergonha, agora era sua âncora, uma ponte para o passado que ele finalmente honrava.
Frederico também buscava reparar outros erros. A memória de Reginaldo, que se afogara no Paraíba, e a covardia com que tratara Teobaldo e Ana Preta pesavam em sua alma. Em um gesto que surpreendeu a todos na fazenda, ele chamou Carolina à casa grande. A jovem, agora mãe de Pedrinho, Janaína e Teobaldo Neto, entrou com o queixo erguido, mas os olhos cautelosos.— Carolina — começou Frederico, a voz firme, mas suavizada por uma emoção rara. — Tu e teus filhos não serão mais escravos. Aqui está tua alforria, e dois contos de réis pra começar uma nova vida. É pouco diante do que fiz a Teobaldo, a Ana Preta e a Reginaldo, mas é o que posso oferecer.Carolina, com lágrimas nos olhos, segurou os papéis da alforria, sentindo o peso de uma liberdade que nunca imaginara. Mas Frederico ergueu a mão, sinalizando que havia mais.— Teobaldo Neto ficará comigo — disse ele. — Ele crescerá ao lado de Chiquinho, meu neto, e será como meu filho. Quero redimir-me com o velho Augusto e desfazer, ao menos em parte, a covardia que cometi com tua família.Carolina hesitou, o coração apertado ao pensar em deixar seu caçula. Mas, vendo a sinceridade nos olhos de Frederico e sabendo que Teobaldo Neto teria uma chance de vida melhor, ela assentiu.— Que ele cresça forte, Dom Frederico — disse, a voz embargada. — E que o senhor cuide dele como cuidaria de Chiquinho.
   Com Pedrinho e Janaína de mãos dadas, Carolina partiu para o Rio de Janeiro, carregando a pequena fortuna e a esperança de multiplicá-la. Na cidade, ela sonhava em construir um futuro para seus filhos, longe da senzala, mas sempre com o vazio deixado por Reginaldo e Teobaldo Neto.

Os meninos crescem juntos e a irmandade vai se moldando
   Na Fazenda Santo André, Francisco e Teobaldo Neto cresciam como irmãos, inseparáveis como Alberto e Reginaldo outrora foram. Sob os cuidados de Frederico e Iracema, que os tratava com igual carinho, os dois meninos corriam pelos cafezais, riam nas margens do Paraíba e compartilhavam segredos que só a infância entende. Mas, ao completarem 18 anos, algo mudou. O que era amizade fraterna transformou-se em algo mais profundo, mais inevitável, como se o destino estivesse repetindo suas teias.   Uma tarde, às margens do Paraíba do Sul, onde o rio sussurrava memórias de amores passados, Francisco e Teobaldo Neto sentaram-se sob o mesmo ipê que testemunhara os encontros de seus pais. Os olhos verdes de Francisco, herança de alguma linhagem distante dos Pereira, encontraram os olhos castanhos de Teobaldo, profundos como os de Reginaldo.— Sinto como se a gente repetisse algo — disse Teobaldo, a voz baixa, quase reverente. — Algo que nasceu comigo, que tá no meu sangue.Francisco, com o coração acelerado, segurou a mão de Teobaldo, sentindo uma conexão que transcendia o tempo.— Eu sinto que tu sempre me pertenceu — confessou, os olhos brilhando. — É algo dentro de mim, que não sei explicar. Como se... como se a gente já tivesse vivido isso antes.
  Os dois se entreolharam em silêncio, o som do rio preenchendo o vazio. Era como se as almas de Alberto e Reginaldo, separadas pela crueldade do século XIX, tivessem encontrado um novo lar em Francisco e Teobaldo. O amor, que outrora fora proibido, agora pulsava novamente, tímido, mas inegável.
  
Frederico, observando os dois jovens da varanda, sentia uma mistura de temor e esperança. Ele sabia, no fundo, que o ciclo se repetia. Mas, diferente de outrora, ele não interferiria. A redenção que buscava o tornara mais sábio, mais humano. Ao lado de Iracema, que segurava sua mão com firmeza, ele murmurou:
— Que eles sejam mais fortes que nós, Iracema. Que o amor deles encontre um caminho que o de Alberto e Reginaldo não pôde.Iracema sorriu, os olhos marejados.— Eles são filhos desta terra, Frederico. E esta terra, como o rio, sempre encontra um jeito de seguir em frente.
  
Enquanto Francisco e Teobaldo, às margens do Paraíba, trocavam olhares que prometiam um futuro incerto, mas cheio de coragem, a Fazenda Santo André parecia respirar novamente. O legado de Augusto, que sonhara com igualdade, e a dor de Alberto e Reginaldo, que amaram contra o mundo, agora viviam nos corações de seus filhos. E, sob o céu do Vale do Paraíba, as teias do destino continuavam a se tecer, prontas para revelar o que o futuro reservava a Francisco e Teobaldo.

Próximo Capítulo: Francisco e Teobaldo se descobrem apaixonados.




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