Ricardo, o artista (9) Final.
Nos anos 2010, o Morro do Salgueiro já não era mais o mesmo de outrora, mas ainda pulsava com a mesma energia que formara Ricardo décadas antes. O barracão da escola, agora modernizado, recebia novos meninos e meninas da comunidade, e entre eles despontava Djalminha — um ritmista mirim de 12 anos, magro, olhos vivos, mãos rápidas no tamborim e no repique. Ele batia no surdo como se o mundo dependesse daquele compasso, mas carregava um sonho maior: queria tocar piano como o “tio Ricardo”, o pianista famoso que voltava ao morro todo ano, sentava no instrumento improvisado e misturava Chopin com samba-enredo.
Ricardo, aos 50 e poucos anos, ainda subia as ladeiras com regularidade. Tocava para os compositores mais velhos, contava histórias de turnês pela Europa, e aceitava dar aulas informais para as crianças talentosas. Djalminha foi um dos primeiros a pedir: “Tio Ric, me ensina piano? Eu quero tocar igual o senhor!”. Ricardo, emocionado com o brilho nos olhos do menino, aceitou. Levou um teclado portátil para o barracão e começou as lições.
Mas o piano não era como o pandeiro. Exigia paciência para separar as notas, entender a partitura, coordenar as mãos direita e esquerda. Djalminha tropeçava nas escalas, confundia dó com ré, irritava-se quando as notas não saíam limpas. Ricardo, acostumado à disciplina férrea que o levara aos palcos internacionais, às vezes perdia a paciência. “Presta atenção, Djalminha! Isso não é surdo, é preciso precisão! Faz direito ou não adianta!”. A rispidez, que para Ricardo era exigência de excelência, soava como bronca para o menino. Djalminha baixava a cabeça, murmurava “tá bom, tio”, mas as aulas rareavam. O simpático pianista que cantava Dalva e tocava Tchaikovsky virava, aos olhos do garoto, um professor rígido demais.
Ricardo percebeu o erro uma tarde, quando Djalminha sumiu por duas semanas. Sentiu o peso da própria impaciência — ele, que fora acolhido no morro sem julgamento, que aprendera samba com carinho e erro permitido. Decidiu consertar. Chamou o menino para um campinho improvisado atrás da quadra da escola.
— Vem cá, Djalminha. Me ensina futebol. Eu não sei jogar direito, faz tempo que não pego numa bola.
Djalminha, desconfiado mas animado, aceitou. Colocou a bola no chão, explicou o drible, o passe. Ricardo fingiu inabilidade: tropeçava na bola, chutava fraco, caía de bunda no chão. Cada erro provocava acessos de fúria no menino.
— Não é assim, tio! Olha o pé! Concentra! Você tá fazendo de propósito? Presta atenção!
Ricardo aguentava as broncas sem reclamar. Até que, num momento, parou. Pegou a bola com calma, fez embaixadinhas — uma, dez, vinte, trinta... com maestria, o pé esquerdo e direito alternando sem erro, o corpo leve, o olhar concentrado. Djalminha ficou de boca aberta.
Ricardo parou a bola no peito, deixou cair no pé e olhou firme para o pupilo.
— Viu? Eu sei jogar. Mas tive que treinar pra alcançar. Caí, errei, apanhei bronca de todo mundo. Fiz mil embaixadinhas erradas antes de acertar cem seguidas. O piano é igual: você erra, corrige, treina de novo. Eu sou exigente porque sei o que é chegar lá. Se eu fosse mole com você, você nunca ia sentir o gosto de dominar o instrumento como domina o tamborim.
Djalminha ficou quieto, olhos marejados. Refletiu. Na aula seguinte, voltou com caderno de partitura rabiscado, dedos mais firmes. Ricardo suavizou o tom: elogiava o progresso, corrigia com paciência, contava histórias de quando ele mesmo chorava frustrado com Tchaikovsky. O menino se dedicou. Praticava em casa no teclado velho da avó, subia ao barracão cedo, anotava tudo.
Dez anos depois, em 2020, Djalminha — agora Dalmiro, 22 anos, formado no conservatório — passou no concurso para pianista da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). A notícia correu o morro como fogo. Ricardo, que estava em turnê na Europa, recebeu o vídeo da mãe do menino: Dalmiro no palco do Theatro Municipal, tocando o Concerto nº 1 de Tchaikovsky — a mesma peça que fazia Ricardo chorar ao final. Lágrimas escorriam pelo rosto do jovem enquanto as mãos voavam nas teclas.
Ricardo ligou na mesma hora.
— Parabéns, meu filho. Você chegou lá.
Do outro lado, voz embargada:
— Tio Ric... foi você que me ensinou a não desistir. Obrigado por ser ríspido quando precisava, e por ser carinhoso quando eu tava caindo.
Ricardo sorriu, enxugando os olhos.
— Você é do Salgueiro, Djalminha. A gente não desiste. E agora vai mostrar pro mundo que o morro também faz concerto.
Aquele menino ritmista mirim tornara-se pianista consagrado, e Ricardo, mais uma vez, sentiu o ciclo se fechar: o que o morro lhe dera, ele devolveu multiplicado. Em cada nota que Dalmiro tocava na OSB, ecoava um pedaço da Tijuca, do samba, da paciência aprendida na calçada da Potengi e no campinho atrás da quadra. Ricardo, orgulhoso, subiu o morro mais vezes ainda — agora para ouvir o pupilo tocar, e para lembrar que a excelência nasce do erro, da bronca justa e, sobretudo, do amor que não desiste.
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