Ricardo, o artista (6)

 Aos 17 anos, em 1973, Ricardo já circulava com naturalidade pelos bastidores da lendária Noitada de Samba, no Teatro Opinião, em Copacabana. Graças aos compositores do Salgueiro — Seu Geraldo Babão, Djalma Sabiá e outros que o adotaram como um deles —, ele ganhou acesso privilegiado àquele espaço mítico de resistência cultural em plena ditadura. Toda segunda-feira, o teatro se transformava em roda de samba pura, trazendo para a Zona Sul nomes como Cartola, Paulinho da Viola, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e, especialmente, Clara Nunes.

Ricardo chegava cedo, ajudava a arrumar mesas, carregava violões e pandeiros, e, quando o clima esquentava, os artistas o chamavam para cantar. Ele surpreendia a todos. Imitava Ney Matogrosso com perfeição — a voz aguda, o timbre delicado que confundia gêneros —, mas sem perder a identidade própria: um calor carioca, uma emoção crua que vinha do peito, misturando o samba de raiz com o que aprendia no piano. Os mais velhos cochichavam: “Esse moleque tem alma de cantor”.

Mas era Clara Nunes quem o hipnotizava de verdade. Quando ela subia ao palco — com seu jeito sereno, o olhar profundo e a voz que parecia vir das profundezas da alma —, Ricardo ficava em transe. Sentado ao lado de Ciro, seu amante, apertava a mão dele com força e sussurrava:

— Nossa! Ela nos hipnotiza, Ciro!

Ciro sorria, beijava sua têmpora discretamente.

— É, amor. É como se ela cantasse pra gente só.

Ricardo aprendia sambas de outras escolas, de outros compositores, absorvendo tudo como esponja. Uma noite memorável, Nelson Cavaquinho — o icônico sambista da Mangueira, com seu cavaquinho surrado e o jeito despojado — visitou o Salgueiro e acabou na roda improvisada no barracão. Sentaram-se à mesa: Nelson, Geraldo Babão, Djalma Sabiá e o menino Ricardo, que mal cabia em si de emoção.

Nelson pediu: “Vai, moleque, canta aí uma da Elizeth”. Ricardo fechou os olhos e soltou o timbre grave e sofrido de Elizeth Cardoso em “A Flor e o Espinho”, depois “Quando Me Chamar Saudade”, “Luz Negra” e, por fim, “Folhas Secas” — que despontava como sucesso na voz de Elis Regina naquele mesmo ano de 1973, em meio à polêmica disputa com Beth Carvalho pela gravação do samba de Nelson e Guilherme de Brito.

Nelson ficou espantado. Parou de beber, largou o copo na mesa e exclamou com seu jeitão espontâneo:

— Porra! Este menino é novo só na aparência! Ele canta tudo que a gente pede!

Geraldo Babão e Djalma Sabiá caíram na gargalhada, batendo nas costas de Ricardo.

— Ele é diferente! É do Salgueiro! — repetiam, orgulhosos.

Ricardo conquistava a confiança dos sambistas. Eles o viam como um dos seus: afinado, sensível, sem pose. Sabia que o palco era questão de tempo; bastava esperar o momento certo, continuar aprendendo a arte da música com humildade.

Enquanto isso, no mundo “oficial”, Ricardo passava no teste vocacional para o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Ingressava no curso de piano, para orgulho imenso de Ferdinando — seu professor em Botafogo, que o acompanhava como um mentor — e de Mariana e Agenor. Eles mal acreditavam: o filho único, que começara imitando Dalva no rádio da sala da Rua Potengi, agora estudava música formalmente numa instituição centenária, com aulas de técnica, harmonia e repertório clássico.

Mariana, ao ver o menino chegar em casa com partituras debaixo do braço, dizia a Agenor:

— Nosso Ricardinho tá virando artista de verdade. Piano, samba, amor... Ele voa mesmo.

Ricardo equilibrava os mundos: as noites no Opinião ou no morro, hipnotizado por Clara; os dias no Liceu, dedilhando escalas; os momentos roubados com Ciro, descobrindo o amor em Ipanema. Aos 17, ele era uma ponte viva entre o samba raiz, a música erudita e a liberdade que tanto buscava. O palco o esperava; o futuro, também.

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