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Mostrando postagens de outubro, 2026

Zambelê - A Vida (8) Final

  Nas tardes douradas de Fortaleza, onde o sol do Ceará pinta o céu de laranja como tela de pintor sertanejo e o mar de Iracema murmura segredos pros casais que passeiam de mãos dadas, o destino – esse tecelão caprichoso de fios vermelhos e azuis – entrelaçou mais uma vez as raízes dos Medeiros à viola errante de Zé Violeiro. Anos haviam se passado desde o encanto imediato na feira poeirenta, onde Zequinha dedilhava o ar como cordas invisíveis e Maria Lúcia, com olhos de costureira que remendava almas em vez de só tecidos, vira no violeiro não um sucesso de palco, mas um porto seguro após tempestades de ausência. O namoro florescera devagar, como mandacaru na caatinga urbana: cafés na barraca dela, com Zé contando modas antigas entre o cheiro de linha e alfinetes; passeios no calçadão ao entardecer, onde o mar lambia os pés deles como bênção; e noites em que a viola calava as dúvidas, cantando "A saudade quando cansa de ficar presa na mão / Vira a dor de uma esperança que não dá n...

Zambelê - A Vida (7)

  Nas tardes crepusculares de Fortaleza, quando o sol se deita no colo do Atlântico como amante exausto e o vento salgado carrega o cheiro de conchas e promessas quebradas, Maria de Fátima caminhava pela Praia de Iracema com o vestido longo ondulando como bandeira de rendição. Aos 35 anos agora, realizada como quem colhe frutos de uma árvore plantada em solo infértil, ela via a família estabelecida: o apartamento no Meireles, com paredes pintadas de azul-mar e fotos emolduradas dos pais sob o juazeiro; a defensoria pública onde defendia os desvalidos com a garra de Raimundo e a ternura de Das Dores; Mário, o marinheiro de mãos calejadas pelo leme, que voltava de seis em seis meses com baús de histórias de portos longínquos e um colar de corais pro pescoço dela. Zé Augusto Sobrinho, o único filho – Zézinho, de 8 anos, com os cachos rebeldes do tio e o riso que ecoava as modas da roça –, estudava num colégio interno no centro, um internato de jesuítas que prometia livros além dos son...

Zambelê - A Vida (6)

  Nas noites de Fortaleza, onde o mar Atlântico ruge como zabumba em festa distante e as luzes da avenida Beira-Mar piscam como estrelas caídas no asfalto, Zé Violeiro afinava a viola na varanda apertada de um sobrado alugado no Meireles, os dedos calejados traçando cordas que gemiam saudades do sertão. A cidade grande o engolira como onda traiçoeira, mas ele, teimoso como cacto na areia, carregava o eco das feiras de Juazeiro nos ombros encurvados. E numa tarde de chuva fina, que lavava o concreto como lágrimas de arrependido, ele dedilhava os versos que pareciam escritos pro destino de Maria de Fátima: "Veio o dia, veio a noite, a luz do sol virou luar / E nos olhos de Maria a tristeza foi rezar, e foi rezar." Cantava baixo, o refrão se misturando ao barulho dos ônibus na rua, porque Zé via nos olhos dela – agora mulher de 28 anos, com o cabelo solto como ondas do mar que ela aprendera a amar e temer – a mesma pomba branca de outrora, voando alto mas caindo na areia da memó...

Zambelê - A Vida (5)

  Nas trilhas sinuosas do tempo, onde o sertão se curva como o dorso de um boi cansado e as modas antigas se entrelaçam com o rodar impiedoso do mundo, Zé Violeiro cavalgava sua viola como um corcel rebelde, parando nas feiras de Juazeiro e Crato pra dedilhar versos que pareciam saídos do coração da caatinga. Agora, compadre de luto duplo, ele visitava os Medeiros menos, mas com o peito mais cheio – as histórias deles, tecidas de perda e teimosia, viravam combustível pras canções que ecoavam nos barracões poeirentos. E numa noite de lua crescente, sob o flamboyant que sombreava a varanda da casa, ele soltou os versos como pássaros libertos: "Zambelê partiu pensando, no caminho de voltar / Mas o mundo foi rodando e parou em outro lugar." Cantava com a voz rouca de quem viu rodas girarem sem piedade, os olhos fixos nos filhos de Das Dores e Raimundo, que cresciam como mandacarus fiéis: tortos pelo vento, mas eretos pro céu. Porque o mundo, ah, o mundo rodava sem freio, levando ...

Zambelê - A Vida (4)

  Nas madrugadas que se seguem ao luto, quando o sertão acorda com o canto rouco dos sabiás e o orvalho que beija a terra como lágrima esquecida, Zé Violeiro sentava-se no degrau da varanda dos Medeiros, a viola muda no colo, os olhos fixos no horizonte onde o sol nascia devagar, como quem hesita em iluminar feridas frescas. Os versos vinham a ele como vento de caatinga, carregados de poeira e verdade: "A saudade quando cansa de ficar presa na mão / Vira a dor de uma esperança que não dá no coração." Cantava baixinho, só pra si, porque as palavras, agora, pareciam pedras no peito – pesadas demais pra soltar em voz alta, leves demais pra afundar de vez. E assim, entre o conformar e o quebrar, os Medeiros iam tecendo sua rede de sobrevivência, fios tortos de ausência que Das Dores deixara como herança: uma saudade que não matava, mas ensinava a viver com o buraco no meio. José Raimundo, o viúvo de ombros caídos como galhos de um ipê seco, ia se conformando com a saudade de sua...

Zambelê - A Vida (3)

Nas noites do sertão, quando o céu se arma de estrelas como facas afiadas e o vento sussurra segredos pelos buracos da taipa, Zé Violeiro sentava-se na varanda dos Medeiros com a viola no colo, os dedos traçando cordas como veias expostas. A família, agora um pouco mais sua, escutava em silêncio os versos que vinham como profecia disfarçada de canção: "Vou contar pra quem não sabe / Que o passado nunca encerra / A maior distância cabe / Em sete palmos de terra, de terra." Cantava baixo, o refrão ecoando como um lamento de riacho seco, porque Zé, com seu peito fundo de estrada, farejava as sombras antes que elas caíssem. E caíram, pesadas como enxurrada de verão, sobre os Medeiros – um baque que rachou o chão da casa como a terra em tempo de estiagem, deixando sulcos que o tempo nunca apagara. Foi numa madrugada de lua minguante, daquelas que tingem o mundo de um cinza sujo, que o destino, caprichoso como um cão raivoso, levou Maria das Dores. O casal, depois de um dia de lida...

Zambelê - A vida (2)

  Nas estradas poeirentas que ligavam as feiras de Juazeiro ao Crato, onde o vento carregava o cheiro de terra úmida após uma chuva fingida e o eco de modas antigas, Zé Violeiro seguia seu ofício de tecelão de histórias. Agora, não mais um estranho de viola nas costas, mas compadre de batismo – um título que José Raimundo e Maria das Dores lhe deram numa noite de São João, com fogueira crepitante e cachaça caseira correndo solta. "Você é da família agora, Seu Zé. Padrinho das dores e das alegrias", dissera Raimundo, batendo nas costas do violeiro com uma palma calejada, enquanto Maria das Dores assentia, os olhos úmidos de uma gratidão que não cabia em palavras. Entre uma visita e outra – um almoço de feijão com torresmo na casa dos Medeiros, uma prosa à beira do curral ao entardecer –, Zé ia desfiando o novelo da vida deles, como quem puxa o fio de uma rede velha para ver os buracos e as tramas firmes. E os versos vinham à boca, como se a viola soubesse antes dele: "Já ...

Zambelê - A vida (1)

  Nas feiras poeirentas de Juazeiro e do Crato, onde o sol do sertão escaldava a terra rachada como um couro velho esticado ao limite, Zé Violeiro perambulava como um fantasma errante, mas de alma viva e viola afinada. Seu chapéu de palha amassado pelo tempo, as botas gastas marcadas por quilômetros de estrada de terra vermelha, e aquela voz rouca que parecia brotar das raízes secas da caatinga. "Ô Zambelê, pomba branca voou, caiu na areia / Água clara molhou, mas secou na lua cheia", cantava ele, repetindo o refrão com um meneio de cabeça que fazia as cordas da viola vibrarem como lamentos de rio seco. Aquelas palavras, tecidas de folclore e sofrimento, eram sua moeda de troca: um verso aqui, um riso ali, e pronto – um pedaço de queijo coalho, um mingau de milho fumegante, ou uns trocados amassados na mão calejada. Mas Zé não era só mendigo de canções; era colecionador de almas. Sentava-se nos barracões improvisados, entre feirantes de rostos enrugados pelo vento e mães de o...

Ricardo, o artista (9) Final.

  Nos anos 2010, o Morro do Salgueiro já não era mais o mesmo de outrora, mas ainda pulsava com a mesma energia que formara Ricardo décadas antes. O barracão da escola, agora modernizado, recebia novos meninos e meninas da comunidade, e entre eles despontava Djalminha — um ritmista mirim de 12 anos, magro, olhos vivos, mãos rápidas no tamborim e no repique. Ele batia no surdo como se o mundo dependesse daquele compasso, mas carregava um sonho maior: queria tocar piano como o “tio Ricardo”, o pianista famoso que voltava ao morro todo ano, sentava no instrumento improvisado e misturava Chopin com samba-enredo. Ricardo, aos 50 e poucos anos, ainda subia as ladeiras com regularidade. Tocava para os compositores mais velhos, contava histórias de turnês pela Europa, e aceitava dar aulas informais para as crianças talentosas. Djalminha foi um dos primeiros a pedir: “Tio Ric, me ensina piano? Eu quero tocar igual o senhor!”. Ricardo, emocionado com o brilho nos olhos do menino, aceitou. L...

Ricardo, o artista (8)

  Aos 18 anos, Ricardo deixou a casa dos pais na Rua Potengi e foi morar com Ciro no apartamento em Ipanema, um espaço pequeno mas cheio de vida, com pôsteres de espetáculos de dança nas paredes e o piano encostado na janela que dava para o mar. Era o começo dos anos 1970 virando 1980, e o mundo ao redor começava a mudar de forma brutal. A epidemia de HIV/Aids, que surgira nos primeiros anos da década de 1980, espalhava-se como um furacão silencioso, especialmente entre homens gays. No Brasil, os casos explodiam: em 1982 veio o primeiro registro oficial em São Paulo, e logo o Rio via amigos, artistas, conhecidos sumirem um a um. O preconceito chamava a doença de “peste gay”, estigma que isolava, culpava e matava mais que o vírus em si. Ricardo, agora pianista em ascensão, via o impacto de perto. A comunidade gay carioca — boates, teatros experimentais, rodas de samba que ele ainda frequentava — perdia gente querida. Ciro e ele perdiam amigos; conversas que antes eram sobre amor vi...

Ricardo, o artista (7)

  Aos 18 anos, em 1974, Ricardo tomou a decisão que mudaria o rumo da sua vida para sempre. Sentado na sala simples da Rua Potengi, com Mariana e Agenor à sua frente, ele respirou fundo e disse a verdade que carregava há anos: — Mãe, pai... eu sou gay. E vou morar com o Ciro. Ele é o homem que eu amo. O silêncio que se seguiu foi denso, mas não hostil. Mariana baixou os olhos por um instante, enxugou uma lágrima discreta com a ponta do avental, e depois estendeu a mão para tocar o rosto do filho. — A gente já sabia, Ricardinho. Desde os tempos que você ficava ouvindo Dalva e chorando sozinho. A gente só esperava você ter coragem de falar. Agenor, homem de poucas palavras, pigarreou, coçou a nuca e murmurou: — Se ele te faz feliz... então tá bom. Mas vem nos visitar, hein? Não some. Tia Iracema, avisada logo depois, riu alto e abraçou o sobrinho com força. — Meu menino diferente! O Salgueiro vai sentir falta do mascote que cantava igual rádio, mas o morro nunca te perde. Volt...

Ricardo, o artista (6)

  Aos 17 anos, em 1973, Ricardo já circulava com naturalidade pelos bastidores da lendária Noitada de Samba , no Teatro Opinião, em Copacabana. Graças aos compositores do Salgueiro — Seu Geraldo Babão, Djalma Sabiá e outros que o adotaram como um deles —, ele ganhou acesso privilegiado àquele espaço mítico de resistência cultural em plena ditadura. Toda segunda-feira, o teatro se transformava em roda de samba pura, trazendo para a Zona Sul nomes como Cartola, Paulinho da Viola, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e, especialmente, Clara Nunes. Ricardo chegava cedo, ajudava a arrumar mesas, carregava violões e pandeiros, e, quando o clima esquentava, os artistas o chamavam para cantar. Ele surpreendia a todos. Imitava Ney Matogrosso com perfeição — a voz aguda, o timbre delicado que confundia gêneros —, mas sem perder a identidade própria: um calor carioca, uma emoção crua que vinha do peito, misturando o samba de raiz com o que aprendia no piano. Os mais velhos cochichavam: “Esse...

Ricardo, o artista (5)

  Aos 16 anos, em 1972, Ricardo já não era mais o menino tímido que chorava versos não correspondidos na calçada do colégio. O samba o havia transformado: tirara a vergonha, dera-lhe ritmo no corpo e confiança na voz. A puberdade chegara com força — o peitoral agora ostentava pelos escuros que ele exibia sem pudor em camisas entreabertas, colarinho largo aberto até o terceiro botão, como se desafiasse o mundo a notar. Tia Iracema ria alto quando o via assim, balançando a cabeça: “Nosso menino quer virar homem antes do tempo!”. Mariana, ao telefone com a irmã, completava: “É, mana, ele tá crescendo rápido demais pra gente segurar”. Os cabelos encaracolados cresciam livres, caindo sobre os ombros, rebeldes como o espírito que os carregava. Ricardo mal se lembrava do garoto de 14 anos que tremia ao entregar um caderno de poesias. Agora, com notas em dia no Científico do Pedro II e a vigilância dos pais um pouco mais frouxa — afinal, ele já provava ser responsável —, começou a se aven...