Ricardo, o artista (8)
Aos 18 anos, Ricardo deixou a casa dos pais na Rua Potengi e foi morar com Ciro no apartamento em Ipanema, um espaço pequeno mas cheio de vida, com pôsteres de espetáculos de dança nas paredes e o piano encostado na janela que dava para o mar. Era o começo dos anos 1970 virando 1980, e o mundo ao redor começava a mudar de forma brutal. A epidemia de HIV/Aids, que surgira nos primeiros anos da década de 1980, espalhava-se como um furacão silencioso, especialmente entre homens gays. No Brasil, os casos explodiam: em 1982 veio o primeiro registro oficial em São Paulo, e logo o Rio via amigos, artistas, conhecidos sumirem um a um. O preconceito chamava a doença de “peste gay”, estigma que isolava, culpava e matava mais que o vírus em si.
Ricardo, agora pianista em ascensão, via o impacto de perto. A comunidade gay carioca — boates, teatros experimentais, rodas de samba que ele ainda frequentava — perdia gente querida. Ciro e ele perdiam amigos; conversas que antes eram sobre amor viravam velórios e hospitais. Ricardo, que crescera entre aceitação familiar e o acolhimento do Morro do Salgueiro, sentia raiva e impotência. O tratamento era precário: o AZT surgiu em 1987, mas era caro, tóxico e insuficiente. O “coquetel” antirretroviral triplo só chegaria de forma efetiva no Brasil em 1996, com distribuição gratuita pelo SUS, salvando vidas que antes eram condenadas.
Entre as vítimas estava Antenor. O menino bonito da turma 801, que rejeitara Ricardo em 1970 com medo e palavras duras, vivera uma vida dupla. Casara-se com Mônica em 1977 — a mesma Mônica debochada e cruel do colégio —, numa tentativa de “normalidade” que muitos gays da época adotavam para escapar do estigma. O casamento durou anos, mas era fachada: Antenor era gay, vivia clandestinamente, escondendo desejos, amores e, por fim, a doença. Em 1986, Mônica o abandonou. Antenor, já muito magro, com depressão avançada, febre constante e as marcas visíveis da Aids — as lesões na pele, o emagrecimento implacável —, bateu à porta de Ricardo.
Ricardo não hesitou. Abriu a porta, abraçou o antigo colega de carteira e o acolheu. Ciro, compreensivo e solidário, concordou. Antenor ficou meses, depois anos. Não era romance; era fraternidade tardia, reparação de uma amizade quebrada. Ricardo cuidava dele: levava ao médico, buscava remédios, cozinhava sopas leves quando o apetite sumia, tocava piano baixinho para acalmar as noites de dor e insônia. Antenor contava histórias do passado — o colégio, as brigas no recreio, o medo que sentira aos 14 anos —, e Ricardo ouvia sem julgamento. “Eu errei com você, Ric. Desculpa”, disse Antenor uma vez, voz fraca. Ricardo respondeu: “A gente era criança. Agora é diferente”.
Antenor viveu até 1997. O coquetel já existia, mas para muitos era tarde: a doença progredira demais, infecções oportunistas chegavam sem piedade. Ele morreu tranquilo, em casa, com Ricardo e Ciro ao lado, segurando sua mão. No enterro, no Cemitério São João Batista, a mãe de Antenor — uma senhora idosa, de luto fechado — aproximou-se de Ricardo. Chorava baixinho.
— Obrigada, meu filho. Você deu a ele os últimos anos com carinho. Ele falou tanto de você... Disse que encontrou paz.
Ricardo assentiu, olhos úmidos. Outros gays solidários estavam ali — amigos que Antenor conhecera na clandestinidade, que o visitavam, que ajudavam com remédios e companhia. Era uma rede invisível de cuidado, comum naqueles anos terríveis, quando famílias rejeitavam e a sociedade virava as costas.
Ricardo sentiu dever cumprido. A mágoa antiga evaporara; restava gratidão por ter podido fechar o ciclo. Anos depois, aos 40, quando voltava ao Morro do Salgueiro e tocava trechos de Tchaikovsky misturados a samba, ele pensava em Antenor. Pensava em todos os que se foram. A Aids o marcara profundamente — perdas, medo, mas também solidariedade. Ele seguia vivo, realizado, amado por Ciro, aplaudido em salas de concerto pelo mundo. Mas carregava no peito a memória daqueles anos de furacão: o quanto doía perder, o quanto valia acolher. E, em cada nota tocada com emoção, homenageava os que não puderam voar.
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