Ricardo, o artista (4)

 Durante o pré-carnaval de 1971, o Rio de Janeiro inteiro parecia cantar uma só música: “O-lê-lê, ô-lá-lá / Pega no ganzê / Pega no ganzá!”. O refrão pegajoso, nascido do samba-enredo “Festa para um Rei Negro”, composto por Zuzuca e Noel Rosa de Oliveira, invadia as ruas, os rádios, os bares e as rodas de samba. Era o hino que o Acadêmicos do Salgueiro levaria à Avenida Presidente Vargas — a lendária Candelária, ainda o coração pulsante do carnaval na época —, contando a história da visita de nobres africanos, incluindo o Rei do Congo, a Maurício de Nassau em Pernambuco, no século XVII. O enredo, sugerido por Joãozinho Trinta e Maria Augusta, misturava nobreza colonial, ritmos africanos e uma festa que celebrava a troca de presentes, danças e a beleza da negritude. O samba revolucionava: ritmo dançante vindo do caxambu, refrão contagiante que grudava na cabeça e logo viraria paródia em torcidas de futebol.

Tia Iracema, perdoando a escapada anterior do sobrinho, acolheu Ricardo de volta à casa no Morro do Salgueiro. Ela vivia mergulhada no trabalho: costurando fantasias encomendadas pelo Salgueiro e por destaques de outras escolas que confiavam nas suas mãos de fada. Ricardo ajudava os primos a embalar as peças prontas, dobrando tecidos com cuidado, admirando os detalhes de paetês, penas e bordados. Foi ali que ele conheceu de perto o trabalho de Maria Augusta, a figurinista genial que entregava croquis cheios de anotações precisas para Iracema. O menino, tímido mas determinado, criou coragem e mostrou alguns desenhos seus — rabiscos sensíveis de figuras mitológicas, flores estilizadas, inspirações que misturavam o que via no morro com o que sonhava.

Maria Augusta ficou encantada. “Menino, você tem olho de artista!”, disse, sorrindo. Levou-o para o improvisado barracão da escola: uma garagem desativada na Tijuca, cheia de cheiro de tinta, cola e isopor. Ali, Ricardo viu os carros alegóricos ganhando forma. Joãozinho Trinta — na época auxiliar de Arlindo Rodrigues, o grande comandante do carnaval salgueirense — pegava uma peça crua de isopor e, com faca e paciência, transformava em escultura viva: reis, rainhas, elementos coloniais que pareciam saltar da história. Ricardo absorvia tudo: o suor dos operários, o barulho das serras, o brilho nos olhos de quem acreditava que o carnaval era arte maior. O Salgueiro não era mais só uma escola; era um mundo que o conquistava por inteiro.

Chegou o dia do desfile, 21 de fevereiro de 1971. Oswaldo, primo de Ricardo, torceu o joelho nos ensaios finais e ficou fora. Ricardo, com a mesma idade, altura e medidas, ganhou permissão dos pais para substituí-lo. Mariana e Agenor hesitaram — carnaval era barulho, multidão, noite adentro —, mas cederam ao entusiasmo do filho e à insistência de Iracema. Ricardo desfilou como pagem, segurando a imensa capa longa da icônica destaque Isabel Valença, que encarnava Ana Paes, mulher de Maurício de Nassau no enredo. (Isabel, eterna Xica da Silva do Salgueiro desde 1963, trazia agora a majestade de uma nobre na narrativa da ocupação holandesa e da festa ao rei negro.) A capa era pesada, bordada, esvoaçante; Ricardo andava com cuidado, orgulhoso, sentindo o chão tremer com o surdo e o samba.

Nem esperou a concentração na Avenida Rio Branco. Saiu de casa já fantasiado, capa vermelha e branca do Salgueiro, rosto pintado de leve. Mariana, na porta, riu e exclamou: “Olha só, Agenor! O Pequeno Príncipe da Potengi!”. Agenor balançou a cabeça, orgulhoso mas confuso com aquele fascínio pelo mundo que Iracema tanto amava e que agora tomava o filho único.

O Salgueiro, como se esperava, venceu o carnaval de 1971 — quinto título da escola, confirmando o favoritismo com 128 pontos. O samba pegou a cidade, o enredo emocionou, as alegorias de Arlindo, Pamplona, Joãozinho e Maria Augusta brilharam. Ricardo voltou para casa exausto, mas radiante, com confetes nos cabelos e o refrão ainda ecoando na cabeça.

No ano letivo seguinte, no Colégio Pedro II, Ricardo contava a história para os colegas mais tímidos — aqueles que o admiravam e o procuravam pela inteligência e pela sensibilidade. Falava do barracão, da avenida, da emoção de segurar a capa de Isabel Valença. Antenor, que voltara ao convívio da turma, ouvia de longe. Ricardo, ainda magoado pela traição da amizade, não retomava o laço. Mantinha distância educada, mas fria; o corte doía menos, mas não cicatrizara.

Enquanto isso, o professor de música Ferdinando notou o potencial do menino. Levava-o para casa em Botafogo, onde Ricardo aprendia a ler partituras e dava os primeiros dedilhados no teclado do piano. Notas tímidas viravam melodias; o que começara com imitações de Dalva e Elizeth ganhava forma erudita.

Aos 15 anos, Ricardo conhecia de tudo um pouco: versos de amor não correspondido, samba de raiz no morro, o luxo reinventado do carnaval, as primeiras lições de piano, a dor da amizade traída e a alegria de ser aceito por um mundo maior. O menino sonhador da Rua Potengi crescia, multifacetado, carregando no peito um jardim de flores novas — agora misturado ao batuque do ganzê e ao brilho do isopor transformado em arte.

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