Ricardo, o artista (5)

 Aos 16 anos, em 1972, Ricardo já não era mais o menino tímido que chorava versos não correspondidos na calçada do colégio. O samba o havia transformado: tirara a vergonha, dera-lhe ritmo no corpo e confiança na voz. A puberdade chegara com força — o peitoral agora ostentava pelos escuros que ele exibia sem pudor em camisas entreabertas, colarinho largo aberto até o terceiro botão, como se desafiasse o mundo a notar. Tia Iracema ria alto quando o via assim, balançando a cabeça: “Nosso menino quer virar homem antes do tempo!”. Mariana, ao telefone com a irmã, completava: “É, mana, ele tá crescendo rápido demais pra gente segurar”.

Os cabelos encaracolados cresciam livres, caindo sobre os ombros, rebeldes como o espírito que os carregava. Ricardo mal se lembrava do garoto de 14 anos que tremia ao entregar um caderno de poesias. Agora, com notas em dia no Científico do Pedro II e a vigilância dos pais um pouco mais frouxa — afinal, ele já provava ser responsável —, começou a se aventurar sozinho pela cidade. A praia de Ipanema virou seu novo território de descoberta.

Ali, na areia dourada e no calçadão fervilhante, ele encontrou uma turma de artistas que o fascinava de longe: músicos, bailarinos, poetas, gente que vivia à margem das regras, bebendo chope nos bares da Vieira Souto, discutindo tropicalismo e contracultura sob o sol poente. Dentre eles, destacava-se Ney — um rapaz moreno de 30 anos, corpo esguio mas forte, também peludo, com um sorriso que parecia desafiar o mundo inteiro. Falava grave, quase rouco no papo cotidiano, mas quando cantava... ah, quando cantava, a voz saía delicada, aguda, quase feminina à primeira audição, confundindo quem ouvia pela primeira vez. Ricardo ficava emocionado, sentado na areia, assistindo Ney improvisar com amigos. Via ali um grande cantor nascendo, alguém que quebrava fronteiras sem esforço.

Outro que o cativava era Ciro, um adolescente quase pós-adolescente de 18 anos, já morando sozinho em um apê pequeno em Ipanema desde os 16. Bailarino ainda sem diploma formal, mas com talento e desenvoltura que enchiam os teatros experimentais da cidade. Ciro levava Ricardo para espetáculos menores — peças ousadas, danças contemporâneas, lugares onde o corpo falava mais que as palavras. Foi com ele que Ricardo viveu, enfim, sua primeira experiência romântica de verdade: beijos roubados nos bastidores, mãos dadas escondidas na multidão, noites de conversa até o amanhecer. Era terno, confuso, libertador. Pela primeira vez, Ricardo se sentia visto, desejado, sem medo ou rejeição.

Mas a vida, caprichosa, trouxe um baque em 30 de agosto de 1972. Ricardo estava em casa, mexendo no rádio velho da sala, quando a Rádio Globo interrompeu a programação: Dalva de Oliveira havia morrido. Aos 55 anos, vítima de complicações de saúde — hemorragia interna agravada por pneumonia, após anos de luta contra o câncer no esôfago. Ele sentou na calçada da Rua Potengi, pernas dobradas, rosto enterrado nas mãos, chorando copiosamente mas em silêncio, como se o mundo não pudesse suportar mais uma lágrima sua.

Mariana saiu correndo ao ouvi-lo soluçar.

— Ricardinho, tu tá acabado, menino! O que houve?

— Mãe... eu amava aquela voz! Eu perdi a Dalva! — respondeu ele, voz embargada.

Ela o abraçou forte, deixando-o chorar no ombro. Juntos, acompanharam pelo rádio a despedida: o velório no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, e o sepultamento no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, Zona Oeste. Ricardo sentiu um vazio imenso, como se parte da sua alma tivesse ido embora com a “Rouxinol do Brasil”.

Em 1973, aos 17 anos, com o Científico quase concluído, Ricardo via Ney Matogrosso despontar com os Secos & Molhados. O grupo, formado por Ney, João Ricardo e Gerson Conrad, explodira no ano anterior com o primeiro disco — lançado em agosto de 1973, vendendo centenas de milhares de cópias em semanas. Músicas como “O Vira”, “Sangue Latino” e “Rosa de Hiroshima” ecoavam por todo o Brasil, e Ney, com sua maquiagem pesada, figurinos extravagantes e voz única, tornava-se ícone de transgressão em plena ditadura. Ricardo ouvia tudo fascinado, comprava os discos, ia a shows quando podia. Ney o inspirava a sonhar maior: sair da casa dos pais, voar independente, viver a arte sem amarras.

O piano, que Ferdinando lhe ensinara em Botafogo, virara confidente. Ricardo sentava horas no instrumento velho da sala, dedilhando melodias que transbordavam sentimentos — mágoas antigas, amores novos, a saudade de Dalva misturada ao frenesi do presente. Mariana desabafava com Agenor, à noite, na cozinha:

— Nosso menino quer voar, Agenor. A Potengi e o Morro não vão segurar ele por muito tempo!

Agenor assentia, olhando para o filho pela janela, agora alto, confiante, com o mundo aos pés. Ricardo, aos 17, era uma mistura vibrante de samba, piano, praia, amor e perda. O menino sonhador da Tijuca crescera; o jovem artista despontava, pronto para alçar voo.

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