Ricardo, o artista (3)
Em dezembro de 1970, o auditório do Colégio Pedro II na Tijuca estava lotado. Famílias inteiras se apertavam nas cadeiras de madeira, ventiladores de teto girando preguiçosamente contra o calor úmido do fim de ano. No palco, bandeiras verde-amarelas e faixas com o lema da escola enfeitavam o fundo. Era a formatura da turma 801, o fim do ginasial e a ponte para o que todo mundo chamava de Ensino Científico — o sonhado Ensino Médio que abria portas para universidade, emprego bom, vida diferente.
Dona Mariana, sentada na terceira fila com Agenor ao lado, não conseguia parar de sorrir. Vestia seu melhor vestido florido, costurado por ela mesma, e segurava um lenço na mão como se fosse um talismã. Quando o diretor chamou “Ricardo, orador da turma”, ela apertou o braço do marido com força. Agenor, de camisa social engomada apesar do suor, murmurou: “Olha lá o nosso menino...”.
Ricardo subiu ao palco com o uniforme impecável, cabelo penteado para o lado, voz firme apesar do nervosismo. Leu o discurso com clareza, agradecendo professores, colegas, pais — palavras que falavam de futuro, de sonhos, de superação. No final, quando recebeu o diploma das mãos do diretor, o aplauso ecoou forte. Mariana enxugou uma lágrima discreta; Agenor bateu palmas com orgulho exagerado. Era o filho único, o orgulho da casa da Rua Potengi, agora oficialmente aprovado para o Científico. Um passo gigante para uma família que mal tinha completado o primário.
As férias de dezembro chegaram como um respiro. Ricardo foi mandado para a casa da Tia Iracema, no alto do Morro do Salgueiro. Iracema era costureira de mão cheia, mas seu nome brilhava mesmo nos meios do samba: figurinista de luxo dos Acadêmicos do Salgueiro, uma das quatro grandes do carnaval carioca — Portela, Império Serrano, Mangueira e Salgueiro disputavam o título de rainha ano após ano. A casa dela era simples, mas cheia de vida: tecidos coloridos pendurados, máquina de costura sempre ligada, rádio tocando samba o dia inteiro.
Ricardo adorava aquilo. Subia o morro com o coração acelerado, sentindo o cheiro de fogão a lenha e o som de pandeiros batendo ao longe. Tia Iracema o apresentava aos compositores do morro: Djalma Sabiá, com seu violão surrado, e Geraldo Babão, “Seu Geraldo” para o garoto, um homem de riso fácil e olhos sábios que compunha sambas-enredo que arrepiavam a comunidade.
Ricardo mostrava a voz afinada que vinha treinando em segredo. Cantava trechos de Dalva de Oliveira, imitava o timbre rouco e sofrido de Elizeth Cardoso. Os compositores pediam: “Vai, moleque, faz a Dalva aí!”. Ele fechava os olhos e soltava: “Acertei a mão, errei o coração...”. Ficavam boquiabertos. “Nossa! Esse garoto é afinado demais! Parece o rádio!”.
Uma noite, numa traquinagem que ninguém esperava de um menino tão certinho, Ricardo convenceu Seu Geraldo a levá-lo ao Teatro Opinião, em Copacabana. Valendo-se da barba rala que começava a nascer — mal aparecia, mas servia de disfarce —, ele entrou na famosa “Noitada de Samba”. O lugar pulsava: mesas apertadas, fumaça de cigarro, copos de cachaça, pandeiro, cavaquinho, surdo. Ali, cantores e cantoras que ele só conhecia pelo rádio circulavam como gente comum.
Seu Geraldo o apresentou a alguns amigos. Ricardo, tímido, cantarolava baixinho “Boato”, antigo sucesso de Elza Soares: “Você foi a mentira que deixou saudade / Todo boato tem um fundo de verdade...”. Elza, que estava por ali, ouviu. Parou, olhou para o garoto com um sorriso largo e maternal. Aproximou-se, fez cafuné na cabeça dele.
— Comecei assim, também, moleque! Eu também imitava a Dalva. Acho que todo mundo fazia isto! — disse ela, rindo, voz grave e quente.
Ricardo ficou vermelho, mas o coração explodia de felicidade. Conhecer Elza Soares, cantar perto dela... era como tocar o céu.
Mas a aventura teve consequências. Tia Iracema, aflita com a demora, esperou Ricardo voltar de madrugada. Quando ele chegou, ela o recebeu com um sermão daqueles: “Menino endiabrado! Sabe que horas são? Podia ter acontecido alguma coisa! Volta pra casa da sua mãe agora!”. Mandou-o descer o morro na mesma hora, de táxi pago do próprio bolso dela.
De volta à Rua Potengi, Ricardo contou tudo para Dona Mariana — menos a parte da Noitada. Falou da voz, dos compositores, do carinho que o morro lhe dava. Mariana, depois de um suspiro, permitiu: “Pode subir de vez em quando, mas com juízo, hein? E volta antes de escurecer”.
Ricardo subia o morro sempre que podia. Os compositores do Salgueiro o adotaram como mascote: davam-lhe conselhos, ensinavam acordes, pediam para ele cantar. A voz afinava mais a cada dia, o samba entrava no sangue. O menino que sofrera por amor não correspondido encontrava ali um novo refúgio — ritmado, colorido, acolhedor. O samba o conquistara de vez, e o Morro do Salgueiro, com suas ladeiras e batuques, começava a ser seu segundo lar.
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