Zambelê - A Vida (7)
Nas tardes crepusculares de Fortaleza, quando o sol se deita no colo do Atlântico como amante exausto e o vento salgado carrega o cheiro de conchas e promessas quebradas, Maria de Fátima caminhava pela Praia de Iracema com o vestido longo ondulando como bandeira de rendição. Aos 35 anos agora, realizada como quem colhe frutos de uma árvore plantada em solo infértil, ela via a família estabelecida: o apartamento no Meireles, com paredes pintadas de azul-mar e fotos emolduradas dos pais sob o juazeiro; a defensoria pública onde defendia os desvalidos com a garra de Raimundo e a ternura de Das Dores; Mário, o marinheiro de mãos calejadas pelo leme, que voltava de seis em seis meses com baús de histórias de portos longínquos e um colar de corais pro pescoço dela. Zé Augusto Sobrinho, o único filho – Zézinho, de 8 anos, com os cachos rebeldes do tio e o riso que ecoava as modas da roça –, estudava num colégio interno no centro, um internato de jesuítas que prometia livros além dos sonhos de Fátima, mas roubava os fins de semana dela como ladrão na noite. "Mãe, quando o papai volta do mar grande?", perguntava o menino nas visitas, os olhos verdes como os de Mário, e ela sorria, engolindo o nó na garganta: "Logo, meu amor, o mar sempre devolve o que toma emprestado".
Mas a realização era véu fino sobre o abismo da saudade, que chegava como onda traiçoeira, molhando a saia e os pés descalços na areia úmida. Maria chorava por Mário em mais um período de seis meses embarcado – o navio dele agora cruzando o Pacífico, cartas chegando com carimbo de Singapura, cheirando a especiarias e ausência: "Te amo na calmaria e na tormenta, doutora, volta pro nosso ninho". Chorava pelo filho que só via nos fins de semana, aqueles domingos de mãos dadas no calçadão, com Zézinho correndo atrás de pipas que voavam como os sonhos dela outrora, livres mas amarrados por uma linha fina de "volta pra casa, mãe". Chorava pelo irmão, José Augusto, cada vez mais envolvido na própria família lá no Crato – agora pai de cinco, com a roça expandida pra um sítio modesto, Rutinha vendendo doces na feira de Juazeiro e os sobrinhos chamando-a de "tia doutora" nas visitas raras, quando ela chegava de carro alugado, poeirenta e exausta, pra abraçar o que restava da casa de taipa. "Você tá voando alto demais, Fatinha, mas não esquece a raiz, hein? O pai e a mãe tão no céu, olhando o mar que você conquistou", dizia Augusto, as mãos calejadas apertando as dela, agora macias de quem maneja papéis em vez de enxadas. E chorava, acima de tudo, pelos pais – Das Dores, com seu riso que aquecia o fogão de lenha, e Raimundo, com seu silêncio de plantador de milagres –, cujos túmulos ela visitava em feriados, ajoelhando na terra vermelha com flores de plástico que o sol desbotava, sussurrando: "Eu fiz, pais. O diploma, o filho, o mar. Mas por quê dói tanto o que se conquista?".
A companhia de Zé Violeiro e suas melodias era o consolo, esse bálsamo de cordas afinadas que o compadre tecia como rede pra pescar almas afogadas. Aos 70 anos mal completados, o violeiro morava num quartinho nos fundos do apartamento dela, pago com o salário de tocador em festas de São João urbanas, onde turistas de terno dançavam forró desajeitado ao som de zabumbas elétricas. Ele viajava menos agora, as botas gastas penduradas na parede como troféus de estrada, mas a viola – velha companheira de palha e pau – ainda gemia verdades do sertão. Nas noites de lua cheia, quando o mar uivava como lobo solitário, Zé sentava na varanda com Fátima, dedilhando modas que curavam sem curar: o Zambelê voando de volta, a pomba branca secando na areia, a saudade virando semente no peito fundo. "O mar molha a saia, doutora, mas não leva o que tá fincado no coração. Seu Mário volta com o vento, o Zézinho cresce com seu colo nos fins de semana, o Pretinho planta pros netos – e seus pais? Eles tão no refrão, cantando com a gente", murmurava ele, a voz rouca como cascalho no riacho seco, e Maria assentia, a cabeça no ombro dele, deixando as lágrimas escorrerem livres.
Não raro, Maria de Fátima chegava até a beira da praia sozinha, o vestido longo – de algodão leve, herdado das costuras de Das Dores, remendado por Rutinha nas últimas visitas – se molhando com o bater das ondas que lambiam os pés como beijos arrependidos. As lágrimas sinceras e soltas se misturavam à água do mar, sal com sal, dor com infinito, enquanto o horizonte engolia o sol e cuspia estrelas. Ali, na fronteira entre o seco e o molhado, ela rezava em silêncio o rosário da vida: gratidão pela âncora da OAB, pelo cargo que salvava os esquecidos como ela salvara a si mesma; pelo casamento que resistia às marés; pela família espalhada como sementes ao vento – Augusto fincado na roça, Ribamar velando o sítio como guardião eterno, Zézinho aprendendo a ler leis antes de modas. Mas a saudade era o preço do voo, o peso das asas que Fátima carregava desde a roça, e no peito, o eco dos pais sussurrava: "Chora, filha, que o mar guarda segredos e devolve força".
Terminava assim a poesia de Zé Violeiro e a saga dos Medeiros – não com fanfarra de formaturas ou casamentos sob o juazeiro, mas com o sussurro das ondas na Praia de Iracema, onde a pomba branca de Maria pousava na areia molhada, voava de novo e secava na lua cheia do coração. O violeiro, no fim de uma tarde assim, guardava a viola no estojo gasto e olhava pra doutora com olhos de quem viu mundos rodarem: "A gente conta, Fatinha, pra que o passado não seque de vez. Os Medeiros são verso que não acaba – de terra vermelha pro sal do mar, de enxada pra lei, de luto pra luar". E Maria sorria, enxugando o rosto com a saia encharcada, o mar como testemunha eterna: a família, dissolvida e refundida, vivia no rodar do mundo, onde a maior distância cabe não em sete palmos, mas no abraço que o tempo, teimoso, sempre promete.
Nas tardes abafadas de Fortaleza, onde o sol do Nordeste se funde ao sal do mar como cachaça em caldo de cana, e as feiras perto da Praia de Iracema fervilhavam como barracões de Juazeiro transplantados pro asfalto – cheiro de peixe frito misturado a tapioca quente e o burburinho de vozes sotaqueadas em português de portos e roças –, Zé Violeiro encontrara seu novo sertão. Aos 65 anos, com a barba agora prateada como luar em riacho seco e as rugas no rosto como sulcos de enxada velha, ele subia nos palanques improvisados de madeira lascada, a viola afinada como alma em confissão, e cantava as modas que o tempo não envelhecera: o Zambelê voando, a pomba branca caindo na areia, a saudade que seca na lua cheia. Sucesso entre os feirantes e turistas de chinelo e óculos escuros, Zé era o eco do Cariri na megalópole – um violeiro que transformava o concreto em caatinga, fazendo mães dançarem com filhos no colo e velhos baterem palmas roucas, murmurando "Esse aí é da gente, do chão vermelho". No meio do tempo em que Fatinha prosperava na defensoria, tecendo leis como cipós pros pobres da periferia, Zé Violeiro cantava e era o rei das noites de feira, o peito fundo enchendo-se de trocados e aplausos que valiam mais que ouro.
Entre os presentes, um menino mirrado de sete anos chamava a atenção como graveto que resiste ao fogo – Zequinha, de pernas finas como varas de curió, pele morena salpicada de sardas do sol da praia, e olhos pretos que devoravam o mundo como Fatinha outrora fizera com livros. Filho de Maria Lúcia, uma costureira de 32 anos que remendava roupas no barracão da feira pra tapar as próprias fomes, o menino vivia à sombra das barracas de sururu e cajuína, correndo entre as pernas dos adultos com a energia de quem sonha ser mais que o destino traçado. Atraído pela melodia da viola de Zé, que ecoava como chamado de santo no meio do burburinho – "Ô Zambelê, pomba branca voou..." –, Zequinha ficava no meio da feira imitando o dedilhar de Zé com uma viola imaginária: dedinhos magros traçando cordas no ar, o corpinho balançando como se o instrumento fosse de verdade, o rosto sério de artista em transe. Chamava a atenção das outras crianças, que paravam o corre-corre pra rir e imitar, formando um coro miúdo de "dedilhadores" desengonçados; e alguns adultos, mães de saias floridas e pais de chapéu de palha, sorriam comovidos, murmurando "Olha o pequeno violeiro, esse vai longe, como o Seu Zé". O drama sutil do menino era o de uma semente no concreto: pai ausente, sumido no mar de dívidas e cachaça, deixando Maria Lúcia a costurar sozinha os retalhos de uma vida, e Zequinha a tecer sonhos com fios invisíveis, atraído pela música como mariposa pela chama.
Zé Violeiro, com o instinto de mestre que fareja aluno na multidão, descia do palco ao fim da moda, a viola pendurada no ombro como fuzil de paz, e se aproximava do "discípulo" com um sorriso que rachava as rugas. "Ô garoto, você dedilha melhor que eu no tempo da seca! Onde aprendeu esse jeito de fazer o ar cantar?", perguntava ele, agachando-se com as juntas rangendo como porteira velha, estendendo a mão calejada pra tocar o ombro miúdo de Zequinha. O menino, olhos arregalados de quem vê anjo em forma de compadre, gaguejava: "É a senhora viola que chama, Seu Zé! Eu sinto ela aqui ó", batendo no peito magro, e Zé ria rouco, tirando uma corda sobressalente do bolso e entregando como talismã: "Guarda isso, Zequinha. Um dia eu te ensino a fazer de verdade – o Zambelê precisa de asas novas". Seu envolvimento era o de um pai postiço tardio: via no menino o reflexo de Augusto na roça, teimoso e sonhador, e no fundo do peito, um drama quieto brotava – e se a cidade engolisse o talento como engolia tantos, virando o garoto em mais um mirrado de feira?
Foi então que Maria Lúcia, a mãe de Zequinha, aparecia no meio da roda de curiosos, os cabelos pretos presos em coque frouxo e o vestido simples de chita azul – remendado por ela mesma, com bainha que roçava os tornozelos calejados de tanto pisar areia e asfalto. Vieram de uma barraca de costura improvisada, onde ela alfinetava bainhas pra turistas apressados, e o chamado do filho a tirara do trabalho com um puxão no avental. Alta e esguia como vara de sirigüela, com olhos castanhos que guardavam o fogo quieto de mulher que cria sozinha, Maria Lúcia parou a poucos passos, o coração batendo como zabumba no peito ao ver o violeiro ajoelhado com seu menino. O encanto dela com Zé Violeiro foi imediato, como raio que fende o céu seco: não o sucesso do palco, mas a gentileza nos olhos dele, o cheiro de terra velha misturado a maresia, a voz rouca que contava mais que cantava. "O senhor é o Seu Zé das modas? Meu menino não para de falar de você desde a feira passada. Obrigada por... por ver ele, né?", disse ela, a voz suave mas tremendo nas bordas, estendendo a mão fina, marcada de picadas de agulha, que Zé apertou com cuidado de quem segura flor frágil. Seu drama era o de uma rede rasgada: viúva de fato, se não de papel, com Zequinha como único farol na neblina da lida diária, sonhando com um homem que cantasse pros silêncios da casa alugada nos manguezais da Praia do Meireles. O encanto imediato era faísca em palha seca – um riso compartilhado sobre as imitações do filho, um convite pra um café de panela na barraca dela, e ali, no meio da feira, o mundo rodava devagar, parando num lugar onde a viola podia curar mais que saudades. Maria de Fátima, que passava pela feira num raro domingo livre – Zézinho no colo, rindo das tapiocas –, avistou a cena de longe e sorriu pro compadre, acenando com o coração leve: "Ô Zé, achou um sucessor pro Zambelê? Cuidado, que o mar aqui engole talentos!". Mas no peito dela, um sussurro de alívio: ver Zé, o guardião errante, tecendo nova rede de afetos na cidade grande, era como ver o sertão brotar no asfalto – teimoso, vivo, pronto pra mais versos. E assim, entre o dedilhar imaginário de Zequinha e o encanto imediato de Maria Lúcia, a saga dos Medeiros se entrelaçava com fios novos, onde o sucesso de um violeiro não era só de palco, mas de almas que se encontram na feira da vida, molhadas de mar e secas de lua cheia.
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