Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 4 - O encontro com o amor e Omolu acolhe seu filho.

    Buscando paz espiritual, Francisco aceitou o convite de Catarina para visitar uma casa de candomblé, a Casa de Ana de Yansã. Lá, ele se viu imediatamente envolvido pela energia vibrante da festa dedicada à dona da casa. Yansã dançava em seu traje vistoso de vermelho e branco, o adê acobreado reluzindo sob as luzes, uma visão que fascinava Francisco. Mas o que verdadeiramente o arrebatou foi a chegada de Oxóssi, o orixá da caça e dos animais. O som do agueré, o ritmo pulsante que anunciava sua presença, parecia chamá-lo como um eco ancestral. Oxóssi manifestou-se em Armando, um bodybuilder de corpo esculpido, cuja força e graça ao dançar possuído pelo orixá pareciam quase divinas aos olhos de Francisco.
    Durante o jantar da festa, os olhares de Francisco e Armando se cruzaram, acompanhados de sorrisos tímidos que carregavam uma promessa silenciosa. "Achei tão lindo a dança de teu orixá!" disse Francisco, a voz cheia de admiração. Armando, com um leve sorriso vaidoso — típico dos filhos de Oxóssi —, respondeu: "Eu sei que olham mais para o meu corpo do que para a beleza do meu pai..." A troca de palavras fluiu natural, e o fascínio inicial de Francisco pelo orixá logo se estendeu ao homem que o incorporava. Livre das amarras e dos olhares opressivos do Iraque, e agora com uma fluência impecável no português — o sotaque eliminado graças às sessões rigorosas com o fonoaudiólogo —, Francisco sentia o amor florescer novamente em seu peito.
Ele passou a frequentar a Casa de Ana de Yansã com regularidade, atraído tanto pela espiritualidade quanto pela conexão que ali encontrava. A paciente mãe de santo, Ana, percebendo sua dedicação, chamou-o para uma consulta ao oráculo dos búzios. Sentada diante dele, com os olhos sábios e serenos, ela jogou os búzios e vaticinou: "Você é filho de Omolu! E foi ele quem te trouxe até aqui!" A revelação ressoou em Francisco como uma verdade que ele sempre carregara sem saber. Ele mergulhou nos rituais de iniciação, cada banho de ervas sagradas de Omolu fortalecendo sua conexão com o orixá. Quando pegou a pedra sagrada, o "otá", pela primeira vez, o transe veio como uma onda, confirmando que Omolu era, de fato, seu guia espiritual. Francisco aprendeu o ritmo da casa, conheceu os outros filhos de santo — uma diversidade humana que o encantava e enriquecia sua compreensão sobre os brasileiros. Em dois anos, ele completou sua iniciação no candomblé. A saída de santo foi um momento de pura emoção. Durante o rum, a dança paramentada, Omolu se fez presente em Francisco, magnífico em suas vestes de marrom, vermelho e branco, o capuz de palhas cobrindo o rosto, o azê adornado com búzios e a lança de madeira em punho. Ele dançava os atos de dores e curas, um reflexo da própria jornada de Francisco, que transformara sofrimento em redenção.
Com o tempo, a proximidade entre Francisco e Armando tornou-se evidente. Mãe Ana, com sua sabedoria maternal, chamou Armando para uma conversa. "Meu filho, você e o Turquinho de Omolu estão muito juntos, eu percebo. Não poderão os dois ter a minha mão nesta situação. Alguém terá que deixar a casa. Você precisa procurar outro terreiro e assim seguir com teu amor." Armando, sem hesitar, procurou Francisco e abriu o coração: "Tô saindo daqui para entrar de vez em tua vida!" Francisco sorriu — um sorriso pleno, que o Iraque lhe roubara por tanto tempo e que o Brasil, com seus jeitos tortos, lhe devolvera. Em poucos anos, Armando e Francisco casaram-se numa cerimônia simples, mas cheia de significado, celebrada por Mãe Ana, que abençoou a união com lágrimas nos olhos. Francisco, agora plenamente integrado à sua nova vida, abriu sua própria casa de candomblé, dedicada a Omolu, com as bênçãos de Ana de Yansã. No meio religioso, ele passou a ser conhecido como "Turquinho de Omolu", um nome que carregava sua história e sua força. Durante a semana, exercia a advocacia com paixão, defendendo os vulneráveis; nos fins de semana, dedicava-se ao sacerdócio, guiando os filhos de santo com a mesma determinação que o trouxera até ali. Armando o admirava em silêncio, enquanto Mãe Ana, sempre presente nas cerimônias, exibia um orgulho maternal pelo caminho que seu "filho de santo" trilhara.
Assim, Francisco Eugênio da Silva se inseriu completamente no país que escolhera e que o adotara. O Brasil, com sua mistura de caos e acolhimento, tornou-se mais do que um refúgio — tornou-se seu lar, onde ele podia amar, acreditar e, finalmente, ser quem sempre fora destinado a ser.

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