Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 2 - Reginaldo e Alberto, o amor que não ousava dizer o nome.
A Luz e a Sombra da Fazenda Santo André
O sol poente tingia de dourado as margens do rio Paraíba do Sul, onde a brisa sussurrava segredos entre os
cafezais da Fazenda Santo André. Ali, sob a sombra de um velho ipê, Alberto e Reginaldo, agora homens de 25
anos, encontravam refúgio. Seus olhares se cruzavam com uma cumplicidade que transcendia o mundo ao redor,
um laço forjado na infância, quando corriam juntos pelas trilhas da fazenda, e agora selado por algo mais profundo,
mais perigoso.
Alberto, o herdeiro de Frederico, era um rapaz de ombros largos e mãos calejadas, um reflexo do avô Augusto que
ele mal conhecera, mas cujo espírito parecia viver em seu peito. Reginaldo, filho de Teobaldo e Ana Preta, tinha a
beleza que fazia os outros pararem para olhar, com olhos que guardavam a força de quem sabia o peso da senzala.
Juntos, eram como duas metades de um mesmo coração, inseparáveis apesar das barreiras que Frederico tentava
impor.
Na infância, os dois eram como irmãos. Brincavam de esconder nas plantações, riam até a barriga doer e sonhavam
com aventuras além do vale. Mas Frederico, com seu olhar severo, nunca tolerava a proximidade. “Alberto, sai de
perto da escravaria, garoto!” gritava, puxando o filho pelo braço. “Tens dez anos e parece com o sujo de teu avô!”
Alberto, com sua alma gentil, não entendia a raiva do pai. “Por que não posso brincar com Reginaldo, pai? Ele é
meu amigo!”
“Amigo?” Frederico ria, amargo. “Ele é preto, Alberto. E tu és um Buarque. Aprendas o teu lugar.
Mas o coração de Alberto não obedecia. Ele cresceu com o mesmo espírito fraterno de Augusto, tratando os
escravos como iguais, ajudando nos cafezais com um orgulho que envergonhava Frederico. “Uma herança maldita
do meu pai,” resmungava o fazendeiro, vendo o filho carregar sacas de café ao lado de Reginaldo, os dois rindo
como se o mundo fosse justo.
Enquanto isso, as irmãs de Alberto, Adélia e Amaraliz, eram o orgulho de Frederico. Adélia, aos 17, casou-se com
um fidalgo português, um homem de bigodes encerados e títulos pomposos. Dois anos depois, Amaraliz, também
aos 17, foi para a corte com um almofadinha de fraque impecável. Frederico, agora viúvo de Heleninha, que
sucumbira a uma febre anos antes, depositava suas esperanças em Alberto. Mas o rapaz, aos 25, era tudo que ele
não queria: um trabalhador braçal, com “porte de preto” e um coração que batia ao ritmo da fazenda, não dos
salões.
Às margens do Paraíba, longe dos olhos da fazenda, Alberto e Reginaldo encontravam-se em segredo. O que
começara como confissões de meninos — sonhos, medos, revoltas — transformara-se em algo mais. Uma tarde,
sob o céu alaranjado, Reginaldo segurou a mão de Alberto, hesitante.
— Às vezes, penso que a gente não pertence a esse mundo, Alberto — murmurou Reginaldo, a voz baixa.
— Tu,
com teu pai te puxando pra corte. Eu, preso à senzala. Mas aqui, contigo... sinto que sou livre.
Alberto apertou a mão dele, o coração acelerado. Seus olhos se encontraram, e o silêncio disse o que as palavras
temiam. Ele se inclinou, e seus lábios se tocaram, tímidos no início, mas logo carregados de uma paixão que não
podia ser contida. O rio testemunhava em silêncio, enquanto o mundo ao redor parecia desabar.
— Se meu pai souber... — começou Alberto, a voz trêmula, mas Reginaldo o interrompeu com outro beijo.
— Não pensa nisso agora. Só pensa em nós.
Os encontros se tornaram mais frequentes, cada um mais arriscado. Eles se amavam às escondidas, entre os
cafezais, sob as estrelas, onde a sombra da senzala e a pressão da corte não podiam alcançá-los.
Mas o equilíbrio era frágil. Frederico, cada vez mais obcecado em moldar Alberto à sua imagem, percebia a proximidade dos dois
com desconfiança crescente.
Uma noite, enquanto Alberto ajudava Reginaldo a consertar uma cerca no cafezal, Frederico apareceu, o rosto
vermelho de raiva.
— Alberto! — rugiu, apontando para Reginaldo. — Quantas vezes te disse pra não te misturar com essa gente? Tu
és meu filho, não um capataz qualquer!
Alberto se levantou, o peito estufado. Pela primeira vez, enfrentou o pai.
— Essa gente, pai? Reginaldo é mais família pra mim do que qualquer fidalgo da corte! O senhor não entende o
que é lealdade, o que é amor!
Frederico ficou pálido, as palavras de Alberto ecoando como um tapa. Ele olhou para Reginaldo, que permanecia
em silêncio, mas com o queixo erguido.
— Cuidado, garoto — disse Frederico, a voz baixa, perigosa. — Tu podes ser meu filho, mas essa fazenda é minha. E
aqui, eu decido quem fica e quem vai.
Ele virou as costas, deixando um silêncio pesado.
Reginaldo tocou o ombro de Alberto, um gesto de conforto, mas
ambos sabiam que a tempestade estava por vir.
Na senzala, Teobaldo, agora grisalho, observava o filho com preocupação. Ele conhecia o peso de um amor
proibido, pois ele próprio carregava as cicatrizes de uma vida de sonhos negados. Sentado ao lado de Ana Preta,
ele segurou a mão dela.
— Nosso Reginaldo tá brincando com fogo, Ana — murmurou. — Esse amor com Alberto... é bonito, mas é
perigoso. Frederico não vai perdoar.
Ana, com os olhos marejados, apertou a mão do marido.
— Eles são jovens, Teobaldo. O coração deles não vê senzala nem sinhá. Mas o mundo vê. E o mundo pune.
Enquanto isso, na casa grande, Alberto encarava o retrato de Augusto, pendurado na sala. “Vô, o que faria no meu
lugar?” perguntou em silêncio, sentindo o peso de um amor que desafiava tudo— a fazenda, o pai, a própria
história.
O destino, porém, já tecia seus fios. A Fazenda Santo André, outrora um sonho de igualdade, agora tremia sob o
choque de um amor que ninguém, exceto Alberto e Reginaldo, podia compreender. E, no horizonte, nuvens escuras
prometiam uma tormenta que mudaria tudo.
Próximo capítulo: Os planos de Frederico para Augusto e Reginaldo, um drama que se avizinha.
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