Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 3 - O peso do destino, os casamentos e as tristezas.

 O Peso do Destino na Fazenda Santo André

O céu sobre Barra Mansa amanheceu carregado, com nuvens escuras que pareciam ecoar o coração despedaçado de Alberto. Na igreja ornamentada para o casamento, o aroma de incenso misturava-se ao burburinho dos nobres que chegavam, suas vestes de seda e joias contrastando com a simplicidade do Vale do Paraíba. Yolanda de Bragança, a noiva, desceria do coche acompanhada do pai, o Conde Henrique, cuja presença imponente silenciava qualquer zombaria sobre seus cofres esvaziados. Para Henrique, aquele casamento era mais que uma união — era a última cartada para assegurar varões que perpetuassem o nome Bragança.Alberto, de fraque preto e olhos fundos, estava ao lado de Frederico na entrada da igreja. O pai, com um sorriso forçado, cumprimentava os convidados, mas não deixava de lançar olhares duros ao filho.— Endireita essa postura, Alberto! — sibilou Frederico, ajustando a gravata do rapaz. — Hoje tu te tornas um homem de verdade, ligado à realeza. Não me envergonhe com essa cara de enterro!Alberto não respondeu. Seu coração estava em outro lugar, preso à cena que testemunhara na véspera: o casamento de Reginaldo e Carolina, selado pelo frade Ernesto na capela rústica da senzala. Ele ainda podia ver Reginaldo, majestoso mesmo na dor, de cabeça baixa enquanto trocava votos com Carolina, uma jovem de olhos carinhosos que, na sua ingenuidade, tomava as lágrimas do noivo por paixão. Alberto, escondido entre as sombras, sentira cada palavra do frade como uma facada. Incapaz de suportar a visão, ele fugira, deixando para trás o amor da sua vida.

O destino de Reginaldo, ser reprodutor.

Na véspera, a senzala estava enfeitada com simplicidade para o casamento de Reginaldo e Carolina. Quincas, o feitor chefe, observava a cerimônia com um sorriso cínico, comentando com Frederico:— Veja os dois, Dom Frederico! Feitos um pro outro. Ele, majestoso como o finado Teobaldo, e ela, uma flor perdida na escravaria. Vão nos trazer negrinhos saudáveis e belos, pode apostar!Frederico, com um aceno de cabeça, consentiu.— Que sejam úteis, Quincas. É o que importa.Reginaldo, vestido com uma túnica simples, segurava as mãos de Carolina, mas seus olhos buscavam o vazio. A morte recente de Teobaldo e Ana Preta, levados por uma febre súbita, já o deixara em luto. Agora, forçado a um casamento que não queria, ele sentia o peso de um destino que não controlava. Quando o frade Ernesto pronunciou as palavras finais, Reginaldo deixou escapar uma lágrima, que Carolina, sorrindo timidamente, interpretou como emoção pelo momento.Do lado de fora, Alberto, que se escondera para assistir, sentiu o coração se partir. Ele queria correr até Reginaldo, arrancá-lo dali, gritar ao mundo que aquele amor era deles. Mas o medo, a pressão do pai e a realidade da senzala o paralisaram. Com lágrimas teimosas escorrendo pelo rosto, ele se afastou, o som dos cânticos da cerimônia ecoando como um lamento.

Alberto sobe ao altar e também se torna um mero reprodutor, de fidalgos

Agora, na igreja de Barra Mansa, o sino badalava, anunciando a chegada de Yolanda. Ela desceu do coche, o véu cobrindo seu rosto, uma figura etérea em um vestido de renda branca. Henrique, ao seu lado, exibia um sorriso triunfante, certo de que Alberto, com seu “porte de reprodutor”, traria os herdeiros varões que ele tanto desejava. Yolanda, alheia à tristeza do noivo, caminhava com graça, cumprimentando os nobres com gestos ensaiados.Alberto, ao vê-la, sentiu apenas vazio. Ele não a odiava — Yolanda parecia gentil, talvez até vítima das mesmas tramas que o prendiam. Mas ela não era Reginaldo. Nunca seria. Enquanto o órgão tocava uma marcha nupcial, ele fechou os olhos por um instante, imaginando o rio Paraíba, os encontros furtivos, os beijos que agora pareciam tão distantes.Frederico, notando a expressão do filho, cutucou-o com força.— Sorria, seu ingrato! — sussurrou, furioso. — Tens a chance de ser mais que um Pereira, mais que um caipira suado. Não jogue isso fora!Alberto abriu os olhos, mas não sorriu. Ele seguiu o ritual como um autômato, trocando votos com Yolanda, cuja voz suave tremia de nervosismo. Os nobres aplaudiram, Henrique enxugou uma lágrima de alívio, e Frederico ergueu o queixo, orgulhoso de sua vitória. Mas, para Alberto, cada palavra dita no altar era uma traição ao que sentia.

Às margens do Paraíba do Sul, confissões e dores de dois homens.

Na Fazenda Santo André, Reginaldo e Carolina começavam sua vida como marido e mulher. Carolina, com seu coração puro, tentava alegrar o marido, trazendo-lhe flores do campo ou cantando enquanto trabalhava. Reginaldo, porém, carregava uma melancolia que ela não entendia. Ele a tratava com respeito, mas seu coração pertencia a outro.Uma noite, enquanto Carolina dormia, Reginaldo escapou até as margens do Paraíba, o lugar que sempre fora seu refúgio com Alberto. Ele se sentou na grama, olhando o reflexo da lua no rio, e deixou as lágrimas caírem livremente.— Tu tá casado agora, Alberto — murmurou para as estrelas. — E eu também. Mas o que a gente sente... isso ninguém pode tirar. Nem a senzala, nem a corte, nem esses casamentos que nos enfiaram goela abaixo.Na casa grande, Alberto, agora um homem casado, olhava pela janela de seu quarto, onde Yolanda dormia. Ele sentia o peso do anel no dedo como uma algema. O céu pesado prometia chuva, e, com ela, a certeza de que a tormenta em seu coração estava apenas começando.Enquanto isso, na senzala, Carolina, acordada pela ausência de Reginaldo, decidiu segui-lo em silêncio. Ao vê-lo chorando à beira do rio, ela sentiu uma pontada de dúvida. Algo em seu coração lhe dizia que o amor de Reginaldo pertencia a outro, mas ela ainda não sabia a quem.
As tramas do destino, tão cruéis e peculiares, haviam separado Alberto e Reginaldo. Mas, sob o céu carregado do Vale do Paraíba, o amor que compartilhavam ardia como uma chama que nem a senzala, nem a corte, nem os casamentos impostos poderiam apagar.




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