Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 1 - A fundação da fazenda Santo André e os conflitos entre pai e filho.
A Saga da Fazenda Santo André
O sol escaldante do Vale do Paraíba, na virada do século XVIII para o XIX, banhava as plantações de café da Fazenda
Santo André. O aroma dos grãos torrados misturava-se ao suor de Augusto Pereira, um homem de pele queimada
pelo sol, olhos fundos de quem carregava segredos e mãos calejadas que contavam a história de uma vida de luta.
Ele, um cristão-novo, fugido das garras da Inquisição em Lisboa, encontrara naquelas terras virgens uma chance de
recomeçar. Não como senhor, mas como um irmão entre os que trabalhavam ao seu lado.
Na varanda da casa que um dia fora um casebre, Augusto enxugava o suor da testa, observando Magnólia e
Estevão, o casal de pretos que comprara anos atrás, mas que agora eram mais do que isso — eram família.
Magnólia, com sua força serena, organizava os grãos colhidos, enquanto Estevão, de riso fácil, carregava sacas com
a energia de quem sabia que o trabalho era também um ato de liberdade.
— Augusto, olha só esses grãos! — disse Magnólia, erguendo um punhado com orgulho. — Tão bonitos que
parecem joias!
Augusto sorriu, o coração aquecido. Ele se aproximou, pegando um grão entre os dedos.
— Joias, sim, Magnólia. Joias que vão nos tirar do chão e construir um futuro. Pra todos nós.
Naquele dia, a primeira grande venda de café foi celebrada com uma festa simples, mas cheia de alma. Os pretos
que chegavam à fazenda, comprados ou resgatados por Augusto, juntavam-se em volta de uma fogueira. Não havia
senhores ali, apenas mãos unidas pelo mesmo sonho. Augusto batizou a fazenda de Santo André, em homenagem
ao santo dos trabalhadores, e, em um gesto que chocou os fazendeiros vizinhos, entregou a alforria a Magnólia e
Estevão.
— Vocês são livres — disse ele, com a voz embargada, entregando os papéis. — Mas, se quiserem, esta terra é
tanto de vocês quanto minha.
Magnólia, com lágrimas nos olhos, abraçou Augusto.
— A gente fica, Augusto. Não por dívida, mas por amor.
Mas nem todos partilhavam daquele espírito. Frederico, o filho único de Augusto com sua falecida esposa, uma
lavadeira portuguesa de coração humilde, crescia com vergonha das origens. Alto, de porte imponente como os
pretos que o cercavam, ele sentia o peso dos olhares dos meninos ricos da vila.
— Eles riem de mim, pai! — desabafou Frederico uma noite, os punhos cerrados. — Zombam das minhas mãos
grosseiras, do meu jeito de preto grande! Eu não nasci pra essa vida de roça. Quero a corte, a cidade, os salões!
Augusto, sentado em sua cadeira de madeira, olhou o filho com tristeza.
— Frederico, essas mãos que tu desprezas construíram tudo que temos. Essa terra, essa casa... tudo veio do
trabalho. O que há de errado em ser quem somos?
— Tudo! — retrucou Frederico, os olhos faiscando. — Eu não quero ser um Pereira, um caipira suado. Quero ser
mais!
As palavras cortaram Augusto como faca. Ele baixou a cabeça, sentindo o peso de um filho que renegava o próprio
sangue.
Frederico renega as raízes e entristece Augusto.
Anos depois, Frederico realizou seu desejo. Nas idas à corte, encantou-se por Heleninha de Buarque, uma sinhá de
pele alva, modos refinados e olhos que escondiam ambição. Heitor de Buarque, o patriarca sem filhos homens, viu
em Frederico a chance de perpetuar seu nome. O casamento foi arranjado, mas Augusto, já velho e com o coração
cansado, não escondia a dor
— Ele quer a riqueza que eu e tua mãe deixamos, Teobaldo — desabafou Augusto com o jovem preto que criara
como filho. Teobaldo, agora um homem de olhos gentis e mãos fortes, ouvia em silêncio. — Mas o meu nome, o
desgraçado rejeita. Quer ser Buarque, como se nós fôssemos nada.
Teobaldo colocou a mão no ombro de Augusto, que era como um pai para ele.
— O senhor é mais que um nome, pai. O senhor é essa terra, essa gente. Frederico não vê isso, mas eu vejo.
Augusto sorriu, os olhos marejados.
— Teobaldo, antes de eu morrer, te faço forro. E te coloco no testamento, como meu filho. Prometo.
Mas o destino não deu tempo. Uma manhã, após uma discussão com Heleninha, que chegara à fazenda com ares
de sinhá e críticas à simplicidade do lugar, Augusto caiu. O coração, já fraco pelo desgosto, parou. Ele morreu com
o olhar fixo em Teobaldo, sem cumprir a promessa.
Frederico, agora casado e com Heleninha grávida, voltou à fazenda para tomar as rédeas. Seus olhos, outrora cheios
de sonhos, agora carregavam frieza. Ele encontrou Teobaldo na varanda, vestido com as roupas simples, mas
dignas, que Augusto lhe dera.
— Teobaldo — disse Frederico, a voz cortante. — Tira essas vestes. Tu não és mais da casa. Vai pra senzala.
Teobaldo ergueu o queixo, a dor queimando no peito, mas a dignidade intacta.
— Frederico, o senhor Augusto me criou como filho. Ele queria...
— Ele queria o quê? — interrompeu Frederico, rindo com desprezo. — Te dar um papel que não te pertence? Tu és
preto, Teobaldo. E preto fica onde preto deve estar.
Heleninha, ao lado do marido, observava com um sorriso frio.
— Faça o que ele diz, rapaz. Não queremos confusão.
Teobaldo engoliu o orgulho e caminhou em direção à senzala, cada passo um peso no coração. Mas ali, entre os
outros, encontrou Ana Preta, uma mulher de olhos profundos e coragem silenciosa. Eles se casaram, e de sua união
nasceu Reginaldo, um menino tão belo que, mesmo criança, fazia cabeças virarem para admirá-lo.
Enquanto Reginaldo crescia, correndo pelas plantações onde outrora Augusto sonhara com igualdade, a Fazenda
Santo André mudava. Frederico, agora Frederico de Buarque, comandava com mão de ferro, apagando o legado do
pai. Mas, nas sombras da senzala, Teobaldo e Ana sussurravam ao filho histórias de um homem chamado Augusto,
que via irmãos onde outros viam escravos. E Reginaldo, com seu brilho único, carregava no sangue a promessa de
que, um dia, a justiça daquele sonho ressurgiria.
Próximo capítulo, a amizade entre Alberto e Reginaldo, que evolui para amor latente.
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