Zambelê - A vida (1)
Nas feiras poeirentas de Juazeiro e do Crato, onde o sol do sertão escaldava a terra rachada como um couro velho esticado ao limite, Zé Violeiro perambulava como um fantasma errante, mas de alma viva e viola afinada. Seu chapéu de palha amassado pelo tempo, as botas gastas marcadas por quilômetros de estrada de terra vermelha, e aquela voz rouca que parecia brotar das raízes secas da caatinga. "Ô Zambelê, pomba branca voou, caiu na areia / Água clara molhou, mas secou na lua cheia", cantava ele, repetindo o refrão com um meneio de cabeça que fazia as cordas da viola vibrarem como lamentos de rio seco. Aquelas palavras, tecidas de folclore e sofrimento, eram sua moeda de troca: um verso aqui, um riso ali, e pronto – um pedaço de queijo coalho, um mingau de milho fumegante, ou uns trocados amassados na mão calejada. Mas Zé não era só mendigo de canções; era colecionador de almas. Sentava-se nos barracões improvisados, entre feirantes de rostos enrugados pelo vento e mães de olhos cansados que embalavam filhos chorosos, e ouvia. Histórias de gente humilde, que plantava esperança em solo infértil; de sonhadores que olhavam para o horizonte imaginando luzes da cidade grande; de conformados, que aceitavam o seco como bênção disfarçada. Acima de tudo, a verdade crua do povo: o suor que não enriquece, o amor que sustenta, a morte que ronda como urubu no céu azul.
Foi numa dessas feiras, sob o cheiro misturado de rapadura derretida e fumaça de fogueira, que o destino – ou o capricho de alguma força maior, talvez a própria lua cheia que secava as águas claras – uniu Zé Violeiro aos Medeiros. A família era como um cacto no meio da seca: dura por fora, mas com uma seiva teimosa correndo por dentro. Zé Raimundo, o pai, era o tronco dessa árvore mirrada. Aos 50 anos mal completados, curvava-se sobre a roça como um penitente, capinando o mato com uma enxada que já fora de seu avô. Sua humildade era milagre em si: de um punhado de terra pedregosa, tirava feijão miúdo, mandioca raquítica e, nos anos bons, um milho que mal dava para o bolo do café. "Deus dá o que a gente merece, e a gente agradece o resto", murmurava ele para o sol poente, enquanto limpava o suor da testa com o dorso da mão, deixando sulcos de lama como mapas de uma vida sem fronteiras. Mas por trás daquela resignação, havia um drama silencioso: a roça encolhia a cada seca, as dívidas com o agiota da vila cresciam como erva daninha, e Zé Raimundo carregava o peso de não poder dar aos filhos mais que o eco da própria infância pobre.
Maria das Dores, a mãe, era o coração pulsante dessa família frágil, uma mulher de 45 anos cujos cabelos pretos, agora salpicados de fios brancos prematuros, caíam em tranças apertadas como âncoras contra o desânimo. Atenta como uma galinha choca, vigiava o marido nos campos, levava-lhe água fresca em cabaça e, à noite, aquecia o corpo dele com o seu, num abraço que era ao mesmo tempo consolo e prisão. Seu drama era o de todas as mulheres do sertão: o medo de ver a família se desfazer como nuvem no vento. Criara os filhos com pão de milho e histórias de santos protetores, mas agora, com as crianças crescendo, sentia o vazio se aproximar. "Eu cuido deles, mas quem cuida de mim?", confessava em noites de insônia, olhando para o teto de palha que gotejava nas chuvas raras.
E havia os filhos, esses frutos precoces que prometiam tanto e doíam tanto. Maria de Fátima, a caçula de 14 anos, era a flor que se abria para o sol distante. Magra como um graveto, com olhos castanhos que devoravam as páginas amareladas de livros emprestados na escola da vila – romances de amor em São Paulo, contos de princesas que fugiam para o asfalto reluzente –, Fatinha sonhava com a cidade grande como quem sonha com o mar num poço seco. "Um dia eu vou embora, mãe, e levo vocês todos no bolso da saia", dizia ela, rindo para disfarçar o aperto no peito. Seu envolvimento com o mundo era inocente, mas carregado de drama: cada página virada era um adeus velado à roça, à família, à terra que a moldara. E Zé Raimundo, em segredo, temia que o sonho dela a levasse para sempre, deixando um buraco no quintal.
Mas era José Augusto, o primogênito de 16 anos recém-feitos, quem trazia o furacão para dentro de casa. Alto para a idade, com ombros largos forjados no trabalho precoce e um queixo eriçado de barba rala, Zé Augusto – ou Zé Pretinho, como os amigos o chamavam – queria ser homem antes que o tempo o permitisse. Aos 14, já ajudava o pai na roça; aos 15, arranjava bicos na feira; e agora, com a carteira assinada como ajudante na oficina de consertos do Seu Manoel, exibia o papelzinho verde como um troféu de guerra. "Olha aqui, pai! Eu sou oficial agora! Dinheiro no fim do mês, pra comprar remédio pra senhora e um vestido pra Fatinha!", gabava-se ele, os olhos brilhando com um orgulho feroz que mascarava a insegurança de quem via a pobreza como uma coleira. Seu envolvimento mais profundo era com Rutinha, a namorada de 15 anos, filha do padeiro da vizinhança: uma moça de riso fácil e cabelos cacheados que dançavam como ondas no vento. Eles se encontravam às escondidas, atrás da igreja ou no riacho seco, trocando beijos apressados e promessas de futuro. Mas aí residia o drama maior: Zé Augusto não queria só namorar; queria construir. "Eu vou casar, vou ter casa própria, vou dar pra ela o que a gente nunca teve", jurava para si mesmo, ignorando que aos 16 anos, o mundo ainda era um campo minado de ilusões.
Maria das Dores, com o instinto de mãe que fareja tempestade, desabafava tudo isso para Zé Violeiro, que se tornara confidente involuntário da família. Numa tarde de feira, enquanto o violeiro dedilhava uma moda triste e os filhos corriam atrás de pipoca, ela se aproximou, os olhos inchados de noites mal dormidas. "Ô Seu Zé, me escuta uma coisa... Esse meu menino, o Zé Augusto, mal fez 16 anos e já quer ser o provedor do mundo! Tá sorridente com essa carteira assinada, como se fosse rei do pedaço. Quer ter filho, quer cuidar de mulher – da Rutinha, aquela danada que põe fogo no olhar dele! Não sei se me orgulho ou se crio cabelo branco com este menino. Ele sai de manhã com o sol e volta à noite suado, cheirando a graxa e orgulho, mas e se a vida o quebra antes da hora? E se ele esquece que ainda é menino, que o sertão não perdoa pressa?"
Zé Violeiro, com sua sabedoria de estrada – que era mais escuta que conselho –, assentia devagar, os dedos parando nas cordas. Para desencargo da consciência, e talvez para cutucar a ferida com gentileza, procurou o rapaz no dia seguinte, quando José Augusto limpava as ferramentas na oficina, o rosto lambuzado de óleo. "Ô Zé Pretinho, por que tanto orgulho nesse papelzinho aí? O suor é de todo mundo, mas a cabeça moça voa longe demais."
O menino ergueu o queixo, os punhos cerrados no pano sujo, e soltou as palavras como flechas: "Pra sonhar em casa, basta Fatinha! Ela lê seus livros e voa no pensamento. Eu sou homem, Seu Zé! Eu tenho que ter o resultado do suor pra conseguir minhas coisas. Não tenho direito de sonhar com quem me tire da pobreza – isso é conversa de rico. Eu vou conquistar, com as mãos, com o peito aberto. Senão, pra quê viver nesse sol que queima e não aquece?"
Ali, no ar parado da oficina, o drama se entrelaçava como cipós: o orgulho de um filho contra o medo de uma mãe, o sonho coletivo da família contra a teimosia individual do menino, e Zé Violeiro no meio, como o narrador invisível que costura as dores em versos. A história dos Medeiros mal começava, mas já carregava o peso de um rio subterrâneo – pronto para transbordar ou secar de vez.
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