Zambelê - A Vida (5)

 Nas trilhas sinuosas do tempo, onde o sertão se curva como o dorso de um boi cansado e as modas antigas se entrelaçam com o rodar impiedoso do mundo, Zé Violeiro cavalgava sua viola como um corcel rebelde, parando nas feiras de Juazeiro e Crato pra dedilhar versos que pareciam saídos do coração da caatinga. Agora, compadre de luto duplo, ele visitava os Medeiros menos, mas com o peito mais cheio – as histórias deles, tecidas de perda e teimosia, viravam combustível pras canções que ecoavam nos barracões poeirentos. E numa noite de lua crescente, sob o flamboyant que sombreava a varanda da casa, ele soltou os versos como pássaros libertos: "Zambelê partiu pensando, no caminho de voltar / Mas o mundo foi rodando e parou em outro lugar." Cantava com a voz rouca de quem viu rodas girarem sem piedade, os olhos fixos nos filhos de Das Dores e Raimundo, que cresciam como mandacarus fiéis: tortos pelo vento, mas eretos pro céu. Porque o mundo, ah, o mundo rodava sem freio, levando os velhos pra sete palmos e empurrando os moços pros caminhos tortos da vida.

Maria de Fátima, a menina dos livros que outrora devorava páginas como fome de pão fresco, concluía agora o ensino médio – na época, o orgulhoso "científico", com suas matérias de álgebra e biologia que pareciam feitiços de outro mundo. Aos 18 anos, magra e alta como vara de bambu, com os cabelos trançados em coroa de rainha estudiosa e os olhos castanhos brilhando como faróis na neblina da roça, ela subia ao palco improvisado da escola da vila, o diploma na mão tremendo de um misto de medo e triunfo. Era o primeiro na parede da casa – um papel emoldurado de madeira barata, pregado acima da mesa de refeições, onde Das Dores sonhara vê-lo anos antes, acariciando os cachos da filha enquanto sussurrava: "Você vai ser a primeira, minha flor, a abrir porta que a gente nem sonha". O drama da formatura era sutil, como chuva fina no sertão: Fátima, que lera sobre capitais reluzentes em jornais amassados, sentia o peso do adeus na mala de compensado que preparava, cheia de roupas remendadas e sonhos dobrados como lençóis. "Mãe, pai, olhem só – eu fiz por nós", dissera ela na festa simples, com bolo de milho e refrigerante de garrafa, os vizinhos batendo palmas como trovões distantes. Seu envolvimento com o futuro era voraz: cada equação resolvida era um tijolo na ponte pra Fortaleza, mas o coração apertava com a culpa de deixar a roça órfã de suas risadas.

No dia da formatura da irmã, José Augusto era o retrato vivo do orgulho fraterno – um jovem de 20 anos agora, ombros largos como os do pai, a pele queimada pelo sol da roça e da oficina, o queixo eriçado de barba que ele deixava crescer pra parecer mais homem. Vestido com a camisa social emprestada de Ribamar, passada a ferro por Rutinha, ele aplaudia de pé na plateia improvisada, os olhos úmidos disfarçados num sorriso largo que esticava as bochechas. "Essa é minha mana, a doutora da família! Vai pra cidade e traz o mundo de volta no bolso!", gritava ele, batendo nas costas do tio Ribamar, que assentia orgulhoso, o chapéu na mão como reverência. Mas o drama de Augusto pulsava por baixo da casca dura: quase casando com Rutinha, que engravidava de três meses – uma barriga sutil ainda, arredondada como cabaça nova, que ela escondia sob o vestido florido, mas que já enchia a casa de planos e temores. Eles haviam marcado a data na igreja da vila, com o padre Seu Chico prometendo bênçãos contra as secas da vida, mas a gravidez apressara tudo: "É menino, Zé Pretinho, eu sinto ele chutando como você na roça", confidenciava Rutinha nos sussurros noturnos, as mãos entrelaçadas sobre o ventre. Augusto, que sonhara com casa própria erguida tijolo a tijolo, via na irmã o espelho de sua própria pressa – ela voando pros livros da capital, ele fincado na terra com raízes novas brotando. Seu orgulho era escudo contra o medo: e se o filho nascesse na seca? E se Rutinha, com seu riso de sol, cansasse da lida que Das Dores suportara?

Raimundo, o viúvo que aprendera a carregar a saudade como enxada no ombro, esquecia as dores do luto por um dia inteiro e vibrava com a filha como se o sol do sertão tivesse nascido só pra ela. Aos 54 anos, mais magro que nunca, com as rugas no rosto como mapas de rios secos, ele se ajeitava na primeira fila, o chapéu na coxa, batendo palmas com vigor de rapaz. "Minha menina, minha Fatinha – Das Dores tá rindo no céu, vendo isso!", exclamava ele, a voz embargada mas o peito inchado, abraçando a filha no fim da cerimônia com um cheiro de terra e orgulho que a fez chorar baixinho no ombro dele. Seu drama, nesse instante de luz, era o de um pai que via o ciclo fechar: a roça encolhera mais, as dívidas com o agiota mordiam como formigas, mas o diploma era milagre – prova de que o suor dele e de Das Dores não fora em vão. Ele se envolvia na alegria como num banho de rio fresco, dançando um forró desajeitado com Fátima no quintal à noite, a viola de Zé Violeiro – que viera de passagem, como sempre – tocando modas alegres pra espantar as sombras.

Poucos dias depois, como se o destino, esse tecelão cego, tivesse fiado o fio até o limite, Raimundo partia também, com um sorriso no leito de algodão cru que cheirava a remédios caseiros e memórias. Foi numa tarde de sol manso, o corpo cansado de anos de capina e luto se rendendo quieto, sem alarde – o coração parando como relógio sem corda, os olhos fixos no diploma na parede, como se esperasse a formatura da "menina" e a continuidade da família com José Augusto pra descansar ao lado de sua amada Das Dores. Ribamar, que velava o irmão como cão fiel, chamou os filhos correndo: "Vem, seus, o tio Raimundo tá indo...", e eles chegaram a tempo de ouvir o último suspiro, um "Cuida dela, Pretinho... e você, Fatinha, voa alto", murmurado pro vento. O enterro foi simples, como o de Das Dores – cova ao lado dela, sob o juazeiro do cemitério, com a vila murmurando "Ele esperou pra ver a flor desabrochar, coitado". Os dois filhos não choraram a morte do pai; eles sorriam ao saber que ele cumprira sua missão, um sorriso torto de quem entende o rodar do mundo: Raimundo, o homem da roça, plantara não só feijão, mas legado – filhos que erguiam o que ele curvara.

Maria de Fátima partia para Fortaleza poucas semanas depois, o coração dividido como estrada bifurcada, pra fazer a universidade pública – pedagogia, sonhada desde os jornais velhos –, pagando com um trabalho conseguido pelo Tio Ribamar, que tinha conhecidos na capital: uma tia distante de um patrão da fazenda, que arranjara vaga de auxiliar numa escola municipal, limpando salas e sonhando aulas. A mala no colo do ônibus lotado, cheirando a diesel e adeus, ela abraçava Augusto e Rutinha na rodoviária de Crato, os olhos secos mas o peito em nó: "Eu volto todo mês, mana – pro netinho, pro pai no céu". Seu drama era o de asas cortadas pela saudade: a cidade grande a chamava com luzes e salas cheias de giz, mas a roça a puxava com o eco das vozes dos pais. Ela se envolvia no novo como mergulho em rio desconhecido – cartas pra Augusto cheias de novidades sobre bondes e praias, mas sempre terminando com "Saudade da terra que me fez".

José Augusto, acompanhado de Rutinha – agora com a barriga arredondada de seis meses, o rosto iluminado por um brilho de mãe nascente –, chorava a dissolução de sua família original como quem chora chuva boa: lágrimas quentes que lavavam o peito, mas sem amargor. Aos 20, com a carteira assinada mais gasta mas o orgulho intacto, ele ficava na casa de taipa, herdada como coroa de espinhos e flores, olhando pros cômodos vazios onde Das Dores cozinhara e Raimundo contara causos. "A gente acabou, Ru, mas começa agora – pro neném, pros que virão", soluçava ele, abraçando a noiva na varanda, o sol poente tingindo o céu de vermelho como promessa. Rutinha, prática como padeiro que amassa massa, secava as lágrimas dele com beijos e planos: "A gente reocupa isso aqui, Zé – quarto pros filhos, rede pro avô que tá no céu rindo". Seu sonho era o de um fogo novo: casar na igreja em dezembro, com o filho nascendo em janeiro, e transformar a roça em ninho – ele dobrando turnos na oficina pra comprar telhado novo, ela vendendo pães na feira pra tapar as gretas. O drama de Augusto era o de herdeiro solitário: orgulho de continuar o legado do pai, mas o vazio da casa ecoando como tambor fúnebre, agora que Fatinha embarcava pra Fortaleza, deixando o quintal só pros urubus e pros novos brotos.

Zé Violeiro, de passagem pela vila com a viola nas costas, parava na porteira pra ver Augusto arar a terra, Rutinha tecendo redes no alpendre, e o fantasma dos pais pairando como névoa boa. "O Zambelê partiu pensando em voltar, mas o mundo roda e para em outro lugar, compadre. Vocês são o rodar que continua – com barriga cheia e sonhos plantados", dizia ele, dedilhando uma moda suave que misturava luto e berço. No peito fundo do violeiro, a história dos Medeiros virava semente eterna: não de dor, mas de rodas que giram, levando o passado pro futuro, sete palmos adiante ou mil léguas além.

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