Zambelê - A Vida (3)
Nas noites do sertão, quando o céu se arma de estrelas como facas afiadas e o vento sussurra segredos pelos buracos da taipa, Zé Violeiro sentava-se na varanda dos Medeiros com a viola no colo, os dedos traçando cordas como veias expostas. A família, agora um pouco mais sua, escutava em silêncio os versos que vinham como profecia disfarçada de canção: "Vou contar pra quem não sabe / Que o passado nunca encerra / A maior distância cabe / Em sete palmos de terra, de terra." Cantava baixo, o refrão ecoando como um lamento de riacho seco, porque Zé, com seu peito fundo de estrada, farejava as sombras antes que elas caíssem. E caíram, pesadas como enxurrada de verão, sobre os Medeiros – um baque que rachou o chão da casa como a terra em tempo de estiagem, deixando sulcos que o tempo nunca apagara.
Foi numa madrugada de lua minguante, daquelas que tingem o mundo de um cinza sujo, que o destino, caprichoso como um cão raivoso, levou Maria das Dores. O casal, depois de um dia de lida comum – Raimundo voltando da roça com as costas arqueadas como arco de flecha, ela remendando uma calça velha à luz de lamparina –, deitara-se na cama de algodão cru, os corpos entrelaçados num abraço de rotina, cheirando a suor e terra fértil. "Boa noite, meu velho, que o sono venha leve", murmurara ela, com aquela voz rouca de quem cantava modas baixinho pros filhos dormindo. Ele respondera com um beijo na testa, o último, sem saber. Ao amanhecer, quando o galo rasgou o silêncio com seu grito rouco, José Raimundo acordou com o peito oco, estendendo a mão pro lado dela e encontrando só o lençol frio, amarrotado como pele de cobra mudada. "Das Dores? Acorda, mulher... Das Dores, pelo amor de Deus, não brinca comigo deste jeito!", chamou ele, a voz ainda sonolenta, sacudindo o ombro dela com gentileza de quem acorda uma criança. Mas o corpo não se mexeu, inerte como boneca de pano esquecida, o rosto sereno, os lábios entreabertos num sorriso sutil – o dever cumprido de mãe, esposa, guardiã da lida, selado num suspiro que ninguém ouvira. "DAS DORES!!!", berrou então, o grito rasgando a casa como facão em cipó, ecoando pelos cômodos de paredes caiadas e chegando aos ouvidos dos filhos, que acordaram sobressaltados, o coração martelando como zabumba em festa fúnebre.
Maria de Fátima, a sonhadora de olhos devoradores de livros, irrompeu no quarto primeiro, os cabelos desgrenhados caindo como cascata negra, vestindo só a camisola fina de algodão. "Mãe? Pai, o que foi?", gaguejou ela, paralisada na porta ao ver o pai ajoelhado ao lado da cama, as mãos tremendo sobre o peito imóvel da mãe, como se pudesse soprar vida de volta com o fôlego da própria dor. José Augusto veio logo atrás, o corpo ainda pesado de sono, mas os punhos cerrados de instinto protetor – "Pai! O que aconteceu com a mãezinha?" –, e o quarto se encheu de um silêncio sufocante, quebrado só pelos soluços abafados de Fátima, que se jogou ao pé da cama, agarrando a mão fria da mãe como se pudesse ancorá-la ao mundo dos vivos. O drama ali era cru, sem enfeites: a família, outrora rede tecida de risos e brigas miúdas, desfazendo-se num instante, os fios se rompendo como corda podre sob peso excessivo. Raimundo, o homem da roça que domava o mato e as secas, desabou como menino perdido, o rosto contorcido em caretas de animal ferido, batendo no colchão com os punhos até os nós dos dedos sangrarem. "Por quê, Das Dores? A gente ainda tinha o milho pra colher, os filhos pra casar... Por quê agora, mulher de Deus?"
Foi o irmão de Raimundo, José Ribamar – um homem de 48 anos, vaqueiro de poucas palavras e costas largas como porteiro de igreja, que morava duas léguas adiante, na fazenda do patrão –, quem correu em socorro quando o grito do cunhado chegou até ele como vento mau. Montado no cavalo baio, galopando pela trilha de terra vermelha com o coração na boca, Ribamar irrompeu na casa como anjo da guarda tardio, os olhos inchados de quem já vira mortes demais no sertão. "Calma, mano, deixa que eu cuido", murmurou ele, envolvendo Raimundo num abraço de urso que cheirava a couro e fumaça de curral, tirando-o da cama com gentileza bruta, como se carregasse um fardo de milho. Amparou o irmão na varanda, onde o sol nascente batia impiedoso, enquanto os filhos, atônitos, velavam o corpo da mãe. Ribamar, prático como quem enterra vacas no mato, providenciou tudo: chamou o vigário da vila pro último adeus, encomendou o caixão simples de pinho ao marceneiro Seu Zeca – "Nada de firula, só o essencial, que Das Dores era mulher de terra" –, e mandou um menino a cavalo pro cemitério pra cavar a cova nos sete palmos de chão sagrado, sob a sombra de um juazeiro torto. O enterro foi ao meio-dia, com o sol escaldando as costas dos presentes: a vila inteira compareceu, feirantes de Juazeiro misturados a vizinhos de Crato, murmurando rezas e fofocas baixinho – "Coitada, morreu dormindo, que sorte, sem sofrer como os outros" –, enquanto Raimundo, de pé ao lado da cova aberta, jogava a primeira pá de terra com mãos que tremiam como folhas no vento. Fátima chorava em silêncio, o rosto enterrado no ombro de Ribamar; Augusto, rígido como poste, mordia o lábio até sangrar, os olhos fixos no caixão como se pudesse furar a madeira com o olhar.
Nos dias que se seguiram, o luto consumiu Raimundo como fogo em palha seca: ele vagava pela roça como fantasma, a enxada parada no ar, o olhar vazio perdido no horizonte, recusando comida e sono, murmurando para o vento "Das Dores, volta, que eu planto o dobro". O drama do viúvo era o de um tronco cortado pela metade, sangrando seiva sem fim – o amor que fora sua âncora agora o arrastava pro fundo, e Ribamar, irmão de sangue e alma, instalou-se na casa pra vigiar, cozinhando mingau ralo e contando causos velhos pra distrair o silêncio. Maria de Fátima, a menina dos livros que voavam como asas, largou as páginas por um tempo: as revistas de Fortaleza amontoavam-se no canto do quarto, poeirentas e esquecidas, enquanto ela se trancava no quintal, tecendo cestos de palha com dedos mecânicos, os olhos vermelhos de noites em claro rezando pro anjo da guarda da mãe. "Eu lia pra esquecer a roça, mãe, mas agora sem você, os livros mentem – o mundo lá fora não tem remédio pra isso", confessava ela pra Zé Violeiro, que voltava às visitas com a viola calada, só pra escutar. Seu envolvimento era o de uma flor murcha antes do tempo, o sonho da cidade grande agora um peso de culpa: e se os livros a tivessem distraído do presente, do cheiro de café que a mãe preparava ao amanhecer?
José Augusto, o menino-homem de ombros largos, canalizava a dor na fúria da terra: saía de madrugada pra roça, dando pancadas na terra com a enxada como se pudesse vingar a morte a cada golpe, o suor misturando-se às lágrimas que ele negava com o queixo erguido. "Eu sou o homem agora, tio Ribamar, eu cuido de tudo – da Fatinha, do pai, da memória dela", jurava ele, a voz embargada, enquanto carregava lenha e consertava o telhado que gotejava. Seu drama se entrelaçava com o de Rutinha, a namorada de riso fácil que agora andava na ponta dos pés pela casa, trazendo pães quentes do pai padeiro e ervas pra chá calmante. Entendendo a dor do amado como quem lê nas entrelinhas de um olhar apagado, ela não cobrava mais o casamento sonhado – aqueles planos de casa própria, de filhos correndo no quintal, agora pareciam profanação. "Espera, Zé Pretinho, o tempo cura o que a enxada não corta", sussurrava ela nos encontres breves atrás da igreja, segurando a mão dele sem apertar, um gesto de paciência que doía mais que pressa. Mas no peito dela, um drama sutil brotava: o medo de que a dor o endurecesse demais, transformando o rapaz sonhador num homem de pedra, onde o amor mal caberia.
Assim, seguia a vida no sertão – teimosa como cacto que perfura rocha, lenta como o gotejar de uma cisterna em cheia. Zé Violeiro, compadre de luto agora, voltava às feiras com a viola mais pesada, cantando os versos que doíam como sal na ferida: a maior distância, sim, cabia em sete palmos de terra, mas o eco das Dores perdurava no ar, nos filhos que cresciam tortos pela perda, no viúvo que plantava sementes com mãos vazias. E no peito fundo do violeiro, a história se tecia em nova moda, pra contar a quem quisesse ouvir: que o passado nunca encerra, e que, no fim, o que resta é o contar, pra que a terra não engula tudo de uma vez.
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