Zambelê - A Vida (6)
Nas noites de Fortaleza, onde o mar Atlântico ruge como zabumba em festa distante e as luzes da avenida Beira-Mar piscam como estrelas caídas no asfalto, Zé Violeiro afinava a viola na varanda apertada de um sobrado alugado no Meireles, os dedos calejados traçando cordas que gemiam saudades do sertão. A cidade grande o engolira como onda traiçoeira, mas ele, teimoso como cacto na areia, carregava o eco das feiras de Juazeiro nos ombros encurvados. E numa tarde de chuva fina, que lavava o concreto como lágrimas de arrependido, ele dedilhava os versos que pareciam escritos pro destino de Maria de Fátima: "Veio o dia, veio a noite, a luz do sol virou luar / E nos olhos de Maria a tristeza foi rezar, e foi rezar." Cantava baixo, o refrão se misturando ao barulho dos ônibus na rua, porque Zé via nos olhos dela – agora mulher de 28 anos, com o cabelo solto como ondas do mar que ela aprendera a amar e temer – a mesma pomba branca de outrora, voando alto mas caindo na areia da memória. A tristeza rezava ali, quieta, entre aprovações e ausências, um rosário de "por quês" que o luar da cidade não respondia.
Maria de Fátima prosperava em Fortaleza como mandacaru que perfura o cimento, raízes fincadas na terra prometida dos livros que devorara na roça. Do trabalho que o Tio Ribamar lhe arrumara – auxiliar numa escola municipal nos subúrbios, varrendo salas ao amanhecer e sonhando aulas à noite –, veio o concurso para assistente judiciária, um edital que ela estudou à luz de lâmpada fraca, os olhos ardendo como ferro em brasa. Passou de raspão, mas com nota que encheu o peito: era a âncora pra faculdade de direito na UFC, aulas no turno da noite, onde ela se sentava na última fileira, caderno no colo, traçando leis como quem planta feijão no sertão – com suor e paciência. "Eu faço por eles, tio, pros que ficaram na terra seca", confidenciava ela nas cartas pra Ribamar, que respondia com postais de Crato, cheirando a poeira e orgulho. Seu drama era o de uma ponte esticada demais: a cidade a moldava em advogada de saltos altos e pastas de couro sintético, mas o sotaque do Cariri escapava nas audiências, traindo a moça que sonhara com praias em jornais velhos. Da faculdade de direito, veio a prova difícil da OAB de Fortaleza – aquela exame que devorava sonhos como urubu em carniça –, e ela passava, no último dia do último mês, com o coração na boca e o nome na lista dos aprovados, impressa no mural da Ordem. "Doutora Maria de Fátima Medeiros", lia ela no espelho rachado do banheiro alugado, os olhos úmidos de vitória e vazio – onde estavam Das Dores pra trançar o cabelo, Raimundo pra bater palmas roucas?
José Augusto, lá no Juazeiro do Norte, terra de romarias e rezos, se orgulhava do irmã como se o diploma dela fosse medalha no peito dele próprio. Aos 24 anos agora, com o terceiro filho no colo – um menininho de olhos pretos como os do avô, chamado Raimundo em homenagem ao que partira sorrindo –, ele olhava pras cartas dela com um riso que esticava as rugas precoces. A casinha no Crato melhorara com seus esforços: telhado de telha nova, comprado com as horas extras na oficina; quintal cercado de muro baixo, onde as galinhas ciscavam livres; e uma sala de visitas com sofá de espuma, pra receber Rutinha, que agora era mulher de mãos cheias de farinha e amor, vendendo pães na feira e gerindo o caos de três pestinhas com riso que curava secas. "Minha mana é doutora, Ru! Ela saiu voando e a gente fica fincado, mas orgulhoso que dói no peito", gabava-se Augusto nas visitas de Fátima, que voltava a cada semestre, o carro empoeirado na estrada de terra vermelha. No Natal daquele ano, ela desceu do ônibus na rodoviária, o terninho amarrotado da viagem contrastando com o vestido florido de Das Dores guardado no baú, e abraçou o irmão com força de quem segura raiz. Maria de Fátima acariciava as mãos calejadas do irmão – ásperas como lixa de roça, marcadas de graxa e enxada –, traçando as linhas com os dedos finos de quem agora manejava caneta em vez de facão. "Você é o pilar, Pretinho, o que segura a casa enquanto eu voo. Mas volta pra mim, hein? Que sem você, Fortaleza é mar sem praia". Seu drama ali era o de gêmeos separados pelo mapa: ele, herdeiro da terra que os pais regaram com sangue; ela, navegante de leis que prometiam justiça pros esquecidos. Mas o orgulho fraterno era bálsamo – ele erguia o copo de cachaça caseira na ceia, brindando "Pela doutora que não esquece o Cariri!", e ela ria, os olhos brilhando como o diploma na parede velha.
Zé Violeiro se mudara pra Fortaleza na época que Maria de Fátima fora pra capital, deixando as feiras poeirentas pros mais moços, a viola nas costas como passaporte pra um exílio dourado. Encontrara trabalho como tocador em bares do centro, modas sertanejas pra turistas de sotaque estranho, mas o coração ficava na roça. Na rodoviária de Crato, sob o sol que escaldava o asfalto como panela no fogo, o Tio Ribamar – agora grisalho de 58 anos, costas mais curvadas mas olhos de vaqueiro atento – apertara a mão do compadre com força de despedida: "Cuida da minha sobrinha, Seu Zé! Sei que o mano confiava em você – o Raimundo dizia que sua viola era remédio pros males da alma. Não deixa ela se iludir com aqueles cabras safados da cidade, que prometem mar e entregam lama!". Zé Violeiro concordara, o chapéu na mão como juramento, os olhos úmidos disfarçados num meneio de cabeça: "Pode ir tranquilo, compadre Ribamar. Eu sou o eco do sertão pra ela – canto o Zambelê pra lembrar que a pomba branca sempre volta, nem que seja no sonho". E assim, em Fortaleza, Zé virava tio postiço: visitas aos domingos com bolo de milho trazido de Juazeiro, conselhos sussurrados em noites de insônia, quando Fátima batia na porta com o peso das audiências nos ombros. Seu envolvimento era o de guardião errante: via os rapazes da faculdade circularem como urubus em torno dela, mas a viola calava as ilusões, tecendo modas que falavam de Das Dores e Raimundo, de amores que secam na lua cheia.
Maria de Fátima se casaria após ser nomeada defensora pública em Fortaleza – um cargo que a botava na trincheira dos pobres, defendendo viúvas de roça e meninos de favela com a fúria quieta que herdara do pai. Aos 30 anos, no cartório simples do Bairro de Fátima – ironia do destino, nome da avó que nunca conhecera –, escolheu Mário Fernandes, marinheiro mercante de 35 anos, um homem de mãos salgadas pelo mar e olhos verdes como o Atlântico que ele cruzava em navios cargueiros. Se conheceram numa audiência portuária, ele testemunhando por um companheiro de bordo, ela argumentando com leis que pareciam ondas contra o vento. "Você é o primeiro que me faz rir sem pena, Mário – como o mar que não mente", dissera ela no primeiro jantar, num boteco de moqueca e cachaça. O casamento foi pequeno, com Ribamar vindo de trem lotado e Augusto trazendo os sobrinhos barulhentos, a viola de Zé tocando uma moda de amor que não seca. A família prosperava devagar: Mário em alto-mar meses a fio, mandando cartas com selos de portos distantes – "Volto com o vento do nordeste, minha doutora, e um colar de conchas pro nosso ninho" –, ela na defensoria, ganhando o pão com batalhas que ecoavam as da roça. Veio o filho, único, José Augusto Sobrinho – Zézinho, de cabelos cacheados e riso que enchia o apartamento modesto no Meireles –, nascido numa madrugada de temporal, com Mário ao telefone de um navio no meio do oceano, gritando "É menino! Meu irmãozinho tem um xará no mar!".
Mas a prosperidade trazia seu veneno sutil: Maria ia à Praia de Iracema ao entardecer, quando o sol mergulhava no horizonte como facão em couro, e sentava na areia fina, o vento salgado bagunçando o cabelo, olhando o mar infinito e chorando de saudades que vinham em ondas traiçoeiras. Saudade do marido, sim, dos meses em que o leito esfriava sem o cheiro de sal dele; da inocência do Juazeiro, onde o mundo cabia no quintal e as dores se contavam na viola; do irmão, Augusto, que agora era pai de três e homem da terra, com mãos que ela ainda sentia ásperas nos sonhos; e dos pais, Das Dores e Raimundo, cujos túmulos sob o juazeiro pareciam tão longe quanto o fim do oceano. "Por que o mar leva e não devolve, mãe? Eu conquistei o que você sonhou, mas o peito dói como roça em seca", sussurrava ela pras conchas que Zézinho atirava na água, o menino rindo alheio ao rosário de lágrimas. Seu drama era o de quem voou alto demais: a defensora pública que salvava estranhos, mas não se salvava da melancolia; a esposa que esperava o marinheiro com jantares frios; a mãe que ninava o filho com modas do Cariri, misturando o barulho das ondas ao choro noturno. A viola do compadre Zé Violeiro era o seu consolo – ele aparecia nas tardes de domingo, dedilhando no calçadão, os versos do Zambelê misturando-se ao burburinho dos turistas: "A tristeza reza nos olhos, doutora, mas o luar vira sol de novo. Seu pai e sua mãe tão rindo lá de cima, vendo o Zézinho dançar como você na formatura". E Maria sorria, enxugando o rosto com a barra da saia, o mar como testemunha de que, no fim, a saudade era o laço que unia o sertão ao sal – eterno, molhado, mas vivo.
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