Ricardo, o artista (2)
Ricardo era filho único de Mariana e Agenor, um casal simples que carregava com orgulho o sonho de dar ao menino uma vida melhor do que a deles. Mariana, costureira habilidosa, passava os dias na máquina de pedal, consertando roupas de vizinhos e fazendo bainhas para ganhar o suficiente para o aluguel e a escola do filho. Agenor dirigia ônibus na linha da Central até a Penha, turnos longos que o deixavam com os olhos vermelhos e o corpo dolorido, mas nunca reclamava — afinal, o salário pagava a mensalidade do Colégio Pedro II, que para eles era como uma porta aberta para um futuro que nunca tiveram.
Depois de alguns anos apertados na Rua do Lavradio, no centro caótico do Rio, onde o aluguel subia mais rápido que o salário, a família voltou para a antiga casa na Rua Potengi, na Tijuca, pertinho do Morro do Salgueiro. Era uma casinha modesta de dois quartos, parede caiada de branco já descascando nas bordas, portãozinho de ferro enferrujado e um quintalzinho nos fundos onde Mariana plantava manjericão e couve. Ricardo gostava dali — era perto da escola municipal André Rebouças, onde ele tinha estudado o primário e se destacado tanto que, ainda na 5ª série, conseguiu o cobiçado exame de admissão para o Pedro II. Entrar no ginasial daquele colégio federal era motivo de orgulho para o bairro inteiro; os vizinhos comentavam: “O filho da Mariana é inteligente demais, vai longe”.
Ricardo e Antenor se conheceram logo no primeiro ano ginasial, na mesma turma. Sentaram juntos por ordem alfabética, e a amizade nasceu rápida: Ricardo ajudava Antenor nas matérias mais difíceis, explicava português e matemática com paciência; Antenor defendia Ricardo das brincadeiras pesadas dos outros meninos, convidava-o para jogar bola no recreio, dividia o lanche. Os colegas notavam — “esses dois são grudados” —, e Ricardo, no fundo do peito, achava que era mais que amizade. Era algo bonito, puro, que fazia o mundo parecer maior e mais colorido.
Mas Antenor era o tipo de menino que atraía olhares. Beleza precoce, sorriso fácil, jeito de líder nato. As meninas da turma cochichavam sobre ele, e entre elas destacava-se Mônica, uma garota de cabelo liso e comprido, língua afiada e um talento cruel para transformar qualquer coisa em fofoca venenosa. Mônica adorava escolher uma vítima e cutucar até doer. Ricardo sempre a evitava; pressentia que, se ela soubesse de algo, usaria sem piedade.
Depois daquela tarde fatídica no corredor, quando Ricardo abriu o coração com versos de amor e Antenor fugiu assustado, tudo mudou. Antenor pediu transferência de carteira no dia seguinte. Passou para o fundão, o território dos mais bagunceiros, onde se sentava perto de Mônica e dos meninos mais velhos da turma. A amizade que Ricardo julgava sólida evaporou como fumaça. No recreio, Antenor já não olhava para ele; quando se esbarravam no corredor, desviava o rosto. E então vieram as ofensas.
Primeiro foram risinhos abafados. Depois cochichos: “o Ricardo é fresco”, “gosta de menino”, “escreveu poesia pra macho”. Mônica liderava, claro, com comentários ácidos que se espalhavam como fogo em palha seca. “Coitado, achou que o Antenor ia cair nessa?”. Antenor não participava diretamente — ficava quieto, olhando para o chão —, mas também não defendia. Seu silêncio doía mais que qualquer palavra.
Ricardo aguentava calado. Sentava na carteira da frente, cabeça baixa, fingindo concentrar nas aulas. Por sorte, era final do ano letivo; as férias de dezembro viriam logo e levariam embora aquela onda de humilhação. Mas em casa, à noite, a dor transbordava.
Ele ligava o rádio velho da sala no volume baixo, esperando o programa da Dalva de Oliveira. Quando a voz rouca e sofrida dela começava — “Vou esquecer você, vou apagar você do meu viver...” ou “Acertei a mão, errei o coração” —, Ricardo colava o ouvido no alto-falante. As letras de fossa, que antes eram só música bonita, agora cortavam fundo. Ele imaginava Antenor chegando com outra — talvez até com Mônica —, passando por ele sem olhar, e as lágrimas vinham quentes, silenciosas.
Mariana ouvia do quarto. Uma noite, entrou na sala com o avental ainda amarrado na cintura.
— Menino! Tu é muito novo pra gostar de música de fossa, não acha? — disse, tentando brincar, mas com preocupação nos olhos.
Ricardo enxugou o rosto rápido com a manga da camisa.
— Tô só na onda, mãe! Gosto da voz da Dalva! — respondeu, forçando um sorriso.
Ela passou a mão no cabelo dele, bagunçando de leve.
— Tá bom, mas não fica aí sofrendo por bobagem. Você tem a vida toda pela frente.
Ricardo assentiu, mas no peito sentia que não era bobagem. Era o primeiro amor, o primeiro corte fundo, a primeira lição amarga: confiança nem sempre volta, e nem todo mundo que sorri para você está pronto para te amar de volta. Ele era diferente, sim — sonhador, sensível, apaixonado por versos e por alguém que não podia retribuir. E naquela casa simples da Rua Potengi, sob o olhar carinhoso dos pais que ainda não sabiam de tudo, Ricardo começava a aprender, dolorosamente, a carregar esse segredo sozinho.
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