Zambelê - A vida (2)

 Nas estradas poeirentas que ligavam as feiras de Juazeiro ao Crato, onde o vento carregava o cheiro de terra úmida após uma chuva fingida e o eco de modas antigas, Zé Violeiro seguia seu ofício de tecelão de histórias. Agora, não mais um estranho de viola nas costas, mas compadre de batismo – um título que José Raimundo e Maria das Dores lhe deram numa noite de São João, com fogueira crepitante e cachaça caseira correndo solta. "Você é da família agora, Seu Zé. Padrinho das dores e das alegrias", dissera Raimundo, batendo nas costas do violeiro com uma palma calejada, enquanto Maria das Dores assentia, os olhos úmidos de uma gratidão que não cabia em palavras. Entre uma visita e outra – um almoço de feijão com torresmo na casa dos Medeiros, uma prosa à beira do curral ao entardecer –, Zé ia desfiando o novelo da vida deles, como quem puxa o fio de uma rede velha para ver os buracos e as tramas firmes. E os versos vinham à boca, como se a viola soubesse antes dele: "Já vi coisas neste mundo / Que não deu no meu olhar / Mas eu tenho o peito fundo / Quero é tempo pra contar, pra contar, pra contar." Cantava baixinho, enquanto escutava, porque o peito fundo de Zé era poço sem fundo para as confidências alheias.

Assim, aos poucos, o compadre ia conhecendo o genesis do casal, essa união forjada no fogo lento do sertão, onde o amor não vem com flores, mas com promessas sussurradas no escuro de uma senzala de taipa. José Raimundo e Maria das Dores se formaram um no outro como argila moldada pela mesma mão invisível. Ele, um rapaz de 20 anos, filho de vaqueiro errante, que herdara do pai não terras, mas o dom de domar o gado bravo e o temperamento próprio. Ela, com 17 primaveras mal desabrochadas, filha de uma costureira viúva que remendava roupas alheias para tapar as próprias fomes. Se conheceram na festa de São Sebastião, em Crato, quando Raimundo, de chapéu torto e botas novas, dançara um forró com Maria, que girava como uma roda de algodão, o vestido florido emprestado da irmã mais velha rodopiando ao som de zabumba e triângulo. "Eu vi nela o rio que eu nunca tive, fresco e quieto no meio da seca", contava Raimundo a Zé, numa tarde de capina preguiçosa, enquanto o sol batia como martelo em bigorna. Mas o drama da formação deles era o de um casamento apressado pela vida, não pelo relógio: grávida de José Augusto antes do anoitecer da lua de mel, Maria das Dores enfrentara os olhares tortos da vila – "Essa menina das Dores vai ser dor de cabeça pro pobre do Raimundo" –, e ele, pra calar as línguas, jurara no altar improvisado da capela: "Eu planto pra nós três, e pra quantos vierem". Vieram Fátima, dois anos depois, num parto que quase levou Maria pro céu dos santos, e o resto foi suor: roças que secavam, invernos que traíam, e um amor que se entrelaçava como cipós, apertado demais pra soltar, frouxo demais pra romper. "A gente se formou na lida, compadre. Ela me ensinou a rezar pros anjos da roça, e eu mostrei pra ela como o facão corta o mato e a dúvida", confidenciava Raimundo, o olhar perdido no horizonte, onde o céu se fundia com a terra como amantes exaustos.

E as "crianças", agora adolescentes com pernas longas e olhos que já viam além do cercado, se diferenciavam como galhos de um mesmo mandacaru: um apontando pro céu de sonhos etéreos, o outro fincado na terra dura de responsabilidades prematuras. Maria de Fátima, a caçula de 14 anos, era o vento leve que bagunçava as páginas dos livros, uma curiosidade insaciável que transformava a casa em biblioteca de trapos. Desde os 10, pedia ao pai, com voz miúda mas olhos de fogo: "Ô pai, quando for pra Fortaleza comprar sementes, traz um livro pra mim, daqueles que contam o mundo lá fora". Raimundo, que mal sabia ler o nome no cartório, voltava das viagens com a sacola do burro abarrotada: revistas velhas de modas da capital, com anúncios de sapatos de salto e rádios transistor; livros usados, encadernações rachadas como couro de bode, cheirando a mofo e aventura – "O Pequeno Príncipe", que ela lia debaixo do flamboyant ao meio-dia; "A Moreninha", que a fazia sonhar com bailes em salões de mármore; e jornais amassados, com notícias de aviões cruzando oceanos e presidentes em ternos brancos. Fátima devorava tudo com ardor de fome antiga, as unhas roídas de ansiedade virando páginas até o sol se pôr. "Esta menina fez dos livros suas bonecas!", ria a orgulhosa Maria das Dores, vendo a filha cochilar com um volume aberto no peito, como se as palavras fossem bercinho. Mas havia drama nessa paixão: cada história lida era um laço frouxo com a roça, um sussurro de adeus. "Mãe, um dia eu vou pra cidade, estudar, virar professora, e trago vocês num carro grande", prometia Fátima, os olhos brilhando como estrelas que ela aprendera a nomear nos jornais. Maria sorria, mas o peito apertava – e se o sonho a levasse como o vento leva a poeira, deixando só o eco?

Já José Augusto, o espelho vivo do pai aos 16 anos, era a raiz teimosa que se enterrava mais fundo na terra, ajudando na roça desde que as mãos cabiam na enxada. Alto, de pele queimada pelo sol e ombros que carregavam sacos de milho como se fossem plumas, ele era Raimundo em versão moça: o mesmo silêncio pensativo ao amanhecer, a mesma garra pra domar o arado rebelde, o mesmo orgulho quieto no fim do dia, quando limpava o suor com a camisa e contava as moedas do bico. Procurava trabalho cedo – carregando lenha pros fornos da padaria, consertando cercas pros vizinhos –, e agora, com a carteira assinada na oficina, exibia o canhoto como escudo contra a pobreza. "Eu sou o homem da casa quando o pai descansa", dizia ele, ajudando Raimundo a carregar o feijão colhido, os músculos tremendo mas o queixo erguido. Seu namoro com Rutinha, porém, era a nuvem negra que pairava sobre tudo: ela, 15 anos de riso solto e quadris que balançavam como palmeiras no vento, filha do padeiro Seu Zé Troca-tudo, que vendia pão quente e fofocas quentes. Encontravam-se no fim das tardes, atrás do muro da igreja ou no barranco do riacho, trocando beijos que sabiam a futuro roubado – mãos entrelaçadas, promessas de casa própria, sussurros de "eu te cuido pra sempre". Mas o drama cortava como faca cega: "Esse menino quer ser homem cedo demais, e daqui a pouco Rutinha tá de barriga!", ponderava José Raimundo, numa noite de prosa com Zé Violeiro, enquanto fumava um cigarro de palha e olhava pro céu cravejado de estrelas indiferentes. "Acha que roça é o que faz o homem... Talvez eu tenha errado com ele, compadre. Plantei nele o suor como semente, mas esqueci de ensinar que o tempo é senhor. Ele vê a gente ralando e pensa que é pra ontem – casar, ter filho, erguer parede de taipa. É meu menino, sangue do meu sangue, mas e se a vida o esmaga como esmagou tantos?"

Zé Violeiro olhava com carinho essa família, esse emaranhado de raízes e asas, de terra e céu. Sentado na varanda de chão batido, com a viola no colo e uma caneca de café amargo na mão, ele via nos Medeiros o espelho do povo: o casal forjado na forja da necessidade, os filhos bifurcando caminhos que doíam no peito dos pais. "Vocês são como o Zambelê, compadre: pomba que voa, cai na areia, molha na água clara, mas seca na lua cheia. E eu, que já vi mundos que não cabem no olhar, só peço tempo pra contar", respondia ele, dedilhando uma melodia suave que acalmava as almas inquietas. No fundo do peito fundo, Zé guardava as histórias como sementes: quem sabe, um dia, virariam canção que ecoasse além das feiras, contando não só as dores, mas a teimosia de quem ama apesar da seca.

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