Zambelê - A Vida (4)
Nas madrugadas que se seguem ao luto, quando o sertão acorda com o canto rouco dos sabiás e o orvalho que beija a terra como lágrima esquecida, Zé Violeiro sentava-se no degrau da varanda dos Medeiros, a viola muda no colo, os olhos fixos no horizonte onde o sol nascia devagar, como quem hesita em iluminar feridas frescas. Os versos vinham a ele como vento de caatinga, carregados de poeira e verdade: "A saudade quando cansa de ficar presa na mão / Vira a dor de uma esperança que não dá no coração." Cantava baixinho, só pra si, porque as palavras, agora, pareciam pedras no peito – pesadas demais pra soltar em voz alta, leves demais pra afundar de vez. E assim, entre o conformar e o quebrar, os Medeiros iam tecendo sua rede de sobrevivência, fios tortos de ausência que Das Dores deixara como herança: uma saudade que não matava, mas ensinava a viver com o buraco no meio.
José Raimundo, o viúvo de ombros caídos como galhos de um ipê seco, ia se conformando com a saudade de sua amada Das Dores como quem aprende a andar com perna de pau – devagar, tropeçando nas lembranças que brotavam como mato no quintal. Aos 50 anos, agora mais curvo que antes, ele voltava à roça ao raiar do dia, a enxada nas mãos calejadas traçando sulcos na terra como se fossem linhas de uma carta não enviada. "Bom dia, Das Dores, olha o milho que eu plantei pra gente", murmurava ele pro vento, imaginando o riso dela ecoando entre as espigas raquíticas, o cheiro de café fresco que ela preparava no fogão de lenha. Seu drama era o de um relógio parado: as noites se alongavam em insônia, o corpo ao lado da cama vazio como cisterna em seca, e ele acordava suando frio, estendendo a mão pro fantasma que não respondia. Mas o conformar vinha em ondas suaves – uma manhã em que o feijão brotou verde, um entardecer em que Ribamar, o irmão fiel, sentava com ele na rede e contava causos de infância, rindo forçado pra espantar o silêncio. "Ela tá nos anjos agora, mano, olhando pra baixo e dizendo 'planta mais, que eu rego do céu'", dizia Ribamar, batendo no joelho do irmão, e Raimundo assentia, os olhos úmidos, deixando que a saudade virasse semente em vez de espinho. Seu envolvimento com a vida seguia teimoso: ajudava os filhos nas tarefas, contava as moedas da feira com cuidado redobrado, mas no peito, a esperança que não dava no coração doía como raiz podre – sonhar com o amanhã sem ela era trair o ontem, e assim, ele plantava não só a roça, mas a memória, regando-a com o suor que misturava sal de lágrimas.
Maria de Fátima, a flor de 14 anos que outrora dançava com páginas como parceiras de forró, prosseguia com seus estudos ainda mais dedicada, como se os livros ocupassem o lugar de sua mãe, que sempre acariciava seus cabelos com dedos leves como brisa e via na filha um futuro brilhante, longe da poeira do sertão. Agora, aos 15 recém-feitos – o aniversário passado em silêncio, com um bolo simples de fubá que Ribamar trouxera –, Fátima se trancava no quarto ao meio-dia, o sol filtrando pelas frestas da janela como dedos acusadores, e devorava as lições da escola da vila com fome de quem come pra esquecer o vazio. "Mãe, olha isso aqui, um poema sobre o mar que eu nunca vi", sussurrava ela pras paredes, traçando as letras com o lápis até o grafite se gastar, imaginando Das Dores ao lado, tecendo tranças no cabelo enquanto elogiava: "Minha menina, você vai ser luz pros outros, como eu fui pra vocês". Seu drama era o de uma ponte quebrada: os livros, que antes eram asas, agora eram âncoras – cada capítulo lido era um adeus velado à roça, mas também um grito de "eu honro você, mãe, virando o que você sonhou". Ela se envolvia com os estudos como num namoro secreto: pedia a Ribamar pra trazer mais volumes de Crato, copiava mapas de capitais em cadernos amassados, e à noite, debaixo do mosquiteiro, sonhava com salas de aula em Fortaleza, professores de terno e giz, mas acordava com o peito apertado, correndo pro quintal pra abraçar o pai, que cheirava a terra e perda. A dedicação era sua armadura, mas rachava nas rezas noturnas: "Deus, deixa ela me ver de cima, orgulhosa, sem dó".
José Augusto, o menino-homem de 16 anos que carregava o mundo nos ombros como saco de milho, se dedicava cada vez mais à roça de manhã e ao trabalho à tarde, fruto da carteira profissional que orgulhava em exibir assinada, agora dobrada no bolso da camisa como talismã contra o caos. Ao amanhecer, ele saía com o pai – ou no lugar dele, quando Raimundo se perdia no luto –, a enxada cortando o mato com fúria controlada, o suor escorrendo como rios no peito largo, enquanto murmurava: "Pra você, mãezinha, eu dobro o braço, que a terra não espera luto". À tarde, na oficina de Seu Manoel, consertava motores enferrujados com mãos que tremiam menos que o coração, o cheiro de graxa misturando-se ao de pão fresco que Rutinha deixava escondido na mochila – um gesto silencioso de amor que não pedia nada em troca. Seu drama era o de um fogo mal apagado: o orgulho da carteira assinada, outrora troféu de independência, agora era escudo pros medos – e se a roça secasse de vez? E se o pai quebrasse antes de ele casar? Ele se envolvia com o trabalho como num pacto de sangue: ajudava Ribamar no curral, negociava sementes na feira de Juazeiro, e nos raros momentos livres, encontrava Rutinha no riacho, onde os beijos vinham mais ternos, menos urgentes. "Eu cuido de todos agora, Ru, como ela cuidava de mim", confessava ele, a voz rouca, e ela assentia, traçando linhas na areia com o dedo, sonhando um futuro adiado mas não cancelado. A dedicação era sua vingança contra a morte: suor por suor, ele erguia paredes invisíveis ao redor da família, mas à noite, sozinho, batia o punho no colchão, perguntando pro escuro por que a mãezinha partira sem esperar ver o filho homem que ele se forçava a ser.
Assim, cada um dos sobreviventes assimilava a ausência da doce Das Dores – essa mulher de mãos calejadas e riso que aquecia como sol de inverno –, transformando o buraco em buraco habitado: Raimundo com sua saudade-conformada, Fátima com seus livros-cafuné, Augusto com seu suor-provedor. A casa, outrora cheia de vozes e cheiros de bolo no forno, ecoava agora com silêncios pontuados por rezas e o tilintar de talheres no almoço frugal que Ribamar preparava, o tio virando pilar onde a mãe fora alicerce. O drama familiar se entrelaçava como cipós na cerca: o medo de que a perda os separasse, o orgulho de que os unisse mais, os sussurros de "um dia a gente ri de novo" misturados ao choro abafado nas madrugadas.
Zé Violeiro via a resistência dos Medeiros com uma lágrima teimosa que ele, pelo orgulho masculino – esse véu de ferro que os homens do sertão vestem como gibão –, não deixava rolar. Sentado ali, na varanda de chão batido, ele dedilhava modas baixinho pros ventos levarem, os olhos úmidos fixos na família que se reerguia como mandacaru após o fogo: tortos, mas vivos. "Vocês são o verso que não acaba, compadres – a saudade cansa na mão, mas vira semente no peito", murmurava ele pra si, engolindo o sal antes que traísse a viola. No fundo do olhar errante, Zé guardava a promessa de contar: que a dor, no fim, não era fim, mas o compasso pausado de uma canção que o sertão teima em cantar, ecoando além das feiras, pras almas que ouvem.
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