Isaquias, o craque - Cap (2)
O sol queimava o gramado do estádio Alcides Santos, em Fortaleza, enquanto a torcida do Ferroviário gritava em
êxtase. Era a final da Taça Brasil sub-17, e Isaquias, com a camisa 10 nas costas, corria como se o destino da família
dependesse de cada drible. Aos 16 anos, ele já era o coração do time, o menino de Crato que transformava a seca
da vida em gols. No último minuto, com o placar empatado, ele recebeu a bola na entrada da área, driblou dois
zagueiros com a leveza de um dançarino e chutou — a bola voou como uma flecha, explodindo no ângulo do
goleiro adversário. O estádio veio abaixo. Isaquias caiu de joelhos, as mãos no rosto, enquanto lágrimas de alívio e
orgulho escorriam. O Ferroviário era campeão, e ele, o craque da conquista.
Dias depois, o telefone da casa simples na favela tocou. Era um dirigente do Fortaleza, o Leão do Pici, o gigante da
capital. "Isaquias, cê é ouro puro. Queremos você no nosso elenco sub-20, e as luvas são boas o suficiente pra
mudar sua vida." O valor era um sonho: dinheiro para tirar a família do barraco de tábuas, das noites sem luz, do
cheiro de esgoto que subia da rua. Sebastiana, ao ouvir a notícia, caiu de joelhos, as mãos trêmulas erguidas para o
céu. "Meu Deus, meu menino virou homem! Obrigada, Senhor!" Ezequiel, com os olhos marejados, deu um tapa nas
costas do irmão. "Eu sabia, Zaquias. Cê nasceu pra brilhar."
Com o contrato assinado, as luvas chegaram como uma enxurrada de esperança. A família deixou a favela num dia
de chuva fina, carregando poucos pertences em sacos plásticos e caixas de papelão. Sebastiana segurava uma
imagem de São Francisco, seu santo de devoção, enquanto Ezequiel carregava Elias nos ombros, rindo como
criança. Mariana, agora com a filha pequena no colo, seguia ao lado do marido Teobaldo, que sonhava em usar o
dinheiro para abrir uma vendinha. Isaquias, quieto, observava tudo com um misto de orgulho e peso no peito. A
nova casa, num bairro simples mas digno, tinha paredes de alvenaria, telhado sem goteiras e uma varanda onde
Sebastiana já imaginava um vaso de manjericão. Pela primeira vez em anos, a carne na panela não seria um luxo,
mas rotina.
Naquela noite, enquanto a família celebrava com um jantar farto — arroz, feijão, frango assado e até refrigerante.
Isaquias se trancou no quarto pequeno que agora era só dele. Ele segurava a bola da final, a mesma que o olheiro do Fortaleza lhe dera como lembrança, mas seus olhos estavam distantes. O sucesso no Ferroviário e a
transferência para o Fortaleza eram tudo o que ele sonhara, mas o segredo que carregava ainda o sufocava. Ele era
o craque que tirara a família da miséria, mas, dentro de si, continuava o menino triste, com medo de que a luz do
sucesso revelasse sua sombra.
Ezequiel bateu na porta, interrompendo os pensamentos do irmão. "Zaquias, cê tá aí chorando de novo? Vem cá,
Mainha tá contando pra vizinhança inteira como cê é o orgulho dela!" Isaquias abriu um sorriso fraco, enxugando o
rosto. Ele sabia que o Fortaleza seria um novo palco, com mais olhos sobre ele — torcedores, técnicos, colegas de
time. E se alguém descobrisse? E se o vestiário, seu santuário, virasse um tribunal?
Mas, ao sair do quarto e ver Sebastiana rindo alto, Elias correndo com um copo de guaraná e Ezequiel abrindo uma
cerveja com Teobaldo, Isaquias respirou fundo. Ele era o craque, sim, mas também era o filho, o irmão, o porto
seguro daquela gente. Por eles, ele vestiria a armadura do Leão e enfrentaria o mundo — mesmo que, no fundo,
ainda lutasse contra si mesmo.
Isaquias já era uma promessa no Fortaleza, mas foi no retorno a um amistoso contra o Ferroviário que ele cruzou
caminho com Henrique Gomes. Henrique, ou "Rique", como os amigos o chamavam, era o oposto de Isaquias: alto,
de pele clara, cabelo penteado com gel, e um sorriso fácil que escondia a pressão de ser o herdeiro de uma família
abastada, dona de concessionárias e imóveis em Fortaleza. Craque do Ferrinho, ele jogava com uma elegância
natural, como se o campo fosse seu palco particular. Durante o jogo, os dois se estranharam num lance — Isaquias
com sua garra bruta, Henrique com sua finesse —, mas, no fim, trocaram um olhar que dizia mais do que palavras.
Após o apito final, Henrique se aproximou, a camisa suada contrastando com o relógio caro no pulso.
— Cê joga com raiva, hein, Zaquias? Mas tem talento pra caramba. Vamos tomar uma depois? — disse ele, com um
tom descontraído que desarmou Isaquias.
O que começou como uma cerveja na esquina virou um convite inesperado: "Vem passar o fim de semana na minha
casa. Minha família tá louca pra conhecer o novo astro do Leão." Isaquias hesitou, mas a curiosidade venceu. No
sábado, ele chegou à mansão dos Gomes no Meireles, o bairro chique de Fortaleza. O portão automático, a piscina
de borda infinita e o som de um piano ao fundo o deixaram mudo. Dona Lúcia, mãe de Henrique, o recebeu com
um abraço caloroso, enquanto Seu Gomes, um homem de terno impecável, apertou sua mão com força. "Cê é o
orgulho do futebol cearense, rapaz. Senta aí, come um camarão!"
Os fins de semana na casa dos Gomes viraram rotina. Isaquias, acostumado à simplicidade da favela, agora
experimentava vinhos caros, jogava videogame em telas gigantes e ouvia histórias de viagens à Europa. Mas o que
mais o prendia era Henrique. Nos papos noite adentro, entre risadas e confissões, Isaquias começou a perceber que
os olhares de Rique não eram só de amizade. Havia algo ali, uma faísca que ele reconhecia em si mesmo. Uma
noite, na varanda, sob o céu estrelado, Henrique se aproximou demais, o rosto iluminado pela luz da piscina. — "Zaquias, cê já parou pra pensar no que quer de verdade? Não o que sua família quer, nem o time… o que você
quer? "— perguntou Henrique, a voz baixa, quase um sussurro.
Isaquias engoliu em seco, o coração disparado. Ele queria responder, mas o medo o travou. Foi então que Henrique
o convidou para um fim de semana no Rio de Janeiro. "Meu tio tem um apê em Ipanema. Só nós dois, sem
pressão." Sebastiana ficou desconfiada, mas Ezequiel, sempre o protetor, disse: "Deixa o menino viver, Mainha. Ele
merece."
No Rio, tudo mudou. O apartamento em Ipanema era um sonho: vista para o mar, móveis brancos, e o som das
ondas invadindo a sala. Na primeira noite, entre cervejas geladas e o calor abafado, Henrique pôs uma música lenta
— um samba que falava de amor proibido — e puxou Isaquias para dançar, rindo como se fosse brincadeira. Mas o
riso morreu quando seus olhos se encontraram. Num impulso, Henrique o beijou, e Isaquias, pela primeira vez, não
resistiu. O mundo parou. Não havia Mainha para decepcionar, nem vestiário para julgar, só ele e Henrique, dois
craques perdidos na mesma busca.
Naquele fim de semana, Isaquias se libertou. Caminharam de mãos dadas pela praia, escondidos entre os turistas,
riram como adolescentes e dormiram abraçados, o som do mar como testemunha. Pela primeira vez, ele não sentiu
culpa, mas uma leveza que o futebol nunca trouxera. Henrique, com sua segurança de quem sempre teve tudo,
mostrou a Isaquias que ser ele mesmo não era pecado — era vida.
De volta a Fortaleza, Isaquias carregava um brilho novo nos olhos, mas também um segredo maior. Ele sabia que a
elite dos Gomes e o amor de Henrique eram um refúgio, mas o Leão, a família e o peso de ser o "craque perfeito"
ainda o esperavam. Na varanda de Ipanema, ele se descobrira, mas agora precisava decidir: viver sua verdade ou
continuar jogando o jogo do mundo?
O verão em Fortaleza estava no auge, o calor grudando a camisa no corpo de Isaquias enquanto ele treinava com o
Fortaleza. Ele já era titular no sub-20, o nome na boca da torcida, mas seus pensamentos estavam em outro lugar —
ou melhor, em outra pessoa. Henrique Gomes, o craque do Ferrinho que virara seu porto seguro, vinha sendo mais
distante nas últimas semanas. As mensagens no celular rareavam, os fins de semana na mansão dos Gomes não
aconteciam mais com a mesma frequência. Isaquias sentia um vazio que não explicava, mas tentava sufocar com
cada chute na bola, cada grito no campo.
Foi numa tarde abafada, após o treino, que a bomba caiu. Henrique apareceu no alojamento do Fortaleza, o rosto
sério, sem o sorriso fácil de sempre. Vestia uma camisa polo impecável, o cabelo penteado como quem se prepara
para algo grande. Isaquias, ainda suado e com a chuteira pendurada no ombro, abriu um sorriso ao vê-lo, mas o
olhar de Henrique o congelou.
— Zaquias, preciso te contar uma coisa. Vamos sentar ali? — disse Henrique, apontando para um banco sob a
sombra de uma árvore.
O coração de Isaquias disparou, mas ele obedeceu, sentando-se com as mãos inquietas no colo. Henrique respirou
fundo, os olhos fixos no chão antes de encarar o amigo.
— Eu fui aceito em Harvard. Engenharia, bolsa integral. Meu pai tá me mandando pra lá no próximo mês. É uma
chance que eu não posso recusar, entende? — A voz dele tremia, mas havia uma firmeza que cortava como faca.
Isaquias piscou, atordoado, como se as palavras não fizessem sentido. Harvard. Estados Unidos. Meses. O mundo
que ele e Henrique construíram — os fins de semana na mansão, as noites em Ipanema, os silêncios que diziam
tudo — desmoronava diante dele.
— Cê… cê vai embora? Assim, do nada? — perguntou Isaquias, a voz rouca, quase um sussurro. Ele sentiu um nó na
garganta, os olhos ardendo.
Henrique desviou o olhar, as mãos apertando os joelhos. — Não é do nada, Zaquias. Eu lutei contra isso, mas meu
pai… ele disse que futebol é hobby, que meu futuro tá lá fora. E eu sei que é egoísta, mas eu quero isso. Quero mais
do que o Ferrinho, mais do que Fortaleza.
Isaquias se levantou de supetão, a chuteira caindo no chão com um baque seco. Ele riu, mas era um riso amargo,
cortado por uma dor que ele não sabia nomear.
— Mais do que eu, né? Cê me mostrou quem eu sou, Rique. Cê me fez acreditar que eu podia ser… que eu podia
viver isso! E agora cê tá pulando fora? — As lágrimas vieram, quentes e descontroladas, escorrendo pelo rosto
suado.
Henrique se levantou também, os olhos marejados, mas a postura firme. — Não é assim, Zaquias. Eu te amo, cara,
de verdade. Mas eu não posso ficar preso aqui por causa disso. Cê tem o Fortaleza, cê tem sua família… cê vai
brilhar sem mim.
— Brilhar? — Isaquias gritou, a voz ecoando pelo pátio vazio. — Cê acha que eu consigo brilhar carregando isso
sozinho? Cê era o único que sabia, o único que me fazia sentir que eu não era um erro!
Henrique tentou tocar seu ombro, mas Isaquias recuou, o peito subindo e descendo em respirações pesadas. Por
um momento, os dois ficaram em silêncio, o barulho distante do trânsito preenchendo o vazio. Então, Henrique
murmurou:
— Eu volto nas férias. A gente pode… sei lá, tentar de novo. Mas agora eu preciso ir.
Isaquias virou o rosto, enxugando as lágrimas com raiva. — Vai, então. Vai pra sua Harvard. Eu fico aqui, com meu
futebol e meu silêncio.
Henrique hesitou, como se quisesse dizer mais, mas apenas assentiu e se afastou, os passos ecoando no concreto.
Isaquias ficou ali, parado, vendo a figura de Rique sumir no portão. Quando o silêncio o engoliu, ele caiu no banco,
as mãos cobrindo o rosto. Pela primeira vez desde Ipanema, sentiu o peso de ser quem era — sem Henrique, sem o
refúgio, apenas ele e o vazio.
Naquela noite, no quarto novo da casa que as luvas do Fortaleza compraram, Isaquias não dormiu. A bola de
futebol, antes seu amuleto, ficou esquecida num canto. Ele olhou pela janela, o céu escuro de Fortaleza refletindo o
buraco que se abrira em seu peito. Henrique partira para Harvard, levando consigo a liberdade que Isaquias mal
começara a entender. O craque do Leão, tão forte no campo, estava quebrado — o primeiro baque de uma vida
que, ele sabia, ainda guardava mais golpes.
Comentários
Postar um comentário