Manoel, o ser de luz. Sexto capítulo. Lucas se conecta inconscientemente ao espírito de luz.
Cinco anos após aquela noite em que Luquinhas, então com cinco anos, observara Peraltinha e Pitoco em sua “oração” às estrelas, o menino crescera para se tornar um garoto de dez anos, cheio de curiosidade e sensibilidade. A casa de Manoel e Márcia ainda pulsava com o calor de um lar repleto de amor, com os herdeiros de Peraltinha e Pitoco — novos filhotes que continuavam a tradição de alegrar o quintal — e as estrelas pintadas no teto do quarto temático, que pareciam brilhar mais forte a cada ano. Luquinhas, agora na escola, carregava o mesmo olhar sonhador que seu pai, Manoel, exibia quando escrevia suas histórias.
Numa tarde ensolarada, Luquinhas chegou correndo da escola, segurando uma folha de papel com a letra caprichada de quem colocara o coração na tarefa. Sua professora de literatura havia pedido uma redação de tema livre como dever de casa, e o menino, sem hesitar, escrevera algo que parecia vir de um lugar além de sua própria imaginação. Ele entrou na sala, onde Manoel corrigia um novo manuscrito, e exclamou, com os olhos brilhando:
— Pai, olha a minha redação, por favor!
Manoel pegou o papel, sorrindo com o entusiasmo do filho, e começou a ler o título: Manoel, a estrelinha que desceu na Terra. Seu coração deu um salto, mas ele continuou, as palavras de Luquinhas ganhando vida diante de seus olhos. A redação contava a história de um menino chamado Manoel, abandonado pelos pais ainda criança, expulso pela irmã mais velha e condenado a vagar pelas ruas. Sozinho, ele encontrara dois companheiros fiéis: um gato e um cachorro, que o protegiam e dividiam sua solidão. Um dia, Manoel encontrou uma estrela guia, que lhe ofereceu três desejos. Mas, a cada chance de pedir por si mesmo, alguém mais necessitado cruzava seu caminho — crianças famintas, uma mulher ferida, um bebê a nascer. A estrela, comovida com sua bondade, deu a Manoel mais três desejos, mas ele, com o coração sempre voltado aos outros, usava cada um para ajudar quem precisava mais.
Quando a estrela estava prestes a partir, Manoelzinho — como Luquinhas o chamava na história — começou a perder as forças, consumido pela fome e pelo cansaço. Seus dois amiguinhos, o gato e o cachorro, ergueram os olhos para a estrela, como se implorassem por ele. A estrela, tocada pela lealdade dos animais e pela pureza do menino, envolveu Manoelzinho em sua luz e o levou para o céu, transformando-o em uma estrela brilhante. Dias depois, ela voltou para buscar o gato e o cachorro, unindo os três no firmamento, onde brilhavam juntos, guiando os corações daqueles que, na Terra, ainda precisavam aprender a amar.
Manoel terminou de ler com os olhos marejados, o papel tremendo em suas mãos. Ele nunca contara a história do Manoel original para Luquinhas. Sua própria conexão com aquele mendigo de Ipanema viera anos antes, por meio de uma carta psicografada que encontrara entre os pertences de seus pais adotivos, Thiago e Clarice, após a morte deles. A carta narrava, em detalhes comoventes, a vida de um homem quase nu, seus dois “anjinhos” e um gênio chamado Assad, que aprendera com ele o que era a verdadeira bondade. Manoel sempre guardara aquela história como um segredo sagrado, um elo com um passado que sentia, mas não compreendia completamente.
Ele olhou para Luquinhas, que o encarava com expectativa, e perguntou, a voz embargada:— Quem te contou essa história, meu filho?
Luquinhas franziu o cenho, confuso, mas com um sorriso inocente. — Ninguém, papai! Eu fui escrevendo, solto, parecia até que a minha mão tinha vontade própria!
Manoel sentiu um arrepio, o mesmo que o acompanhava quando escrevia e sentia uma mão invisível guiando a sua. Ele puxou Luquinhas para um abraço apertado, as lágrimas escorrendo enquanto sussurrava:
— Me dá um abraço, meu filho!
Enquanto abraçava o menino, Manoel olhou pela janela, onde o céu de Ipanema começava a se encher de estrelas. Quatro delas brilhavam com uma intensidade que parecia pulsar em resposta. Ele soube, naquele momento, que Manoel, Biriba, Bituca e Assad estavam lá, não apenas como guardiões, mas como parte de sua família, guiando a mão de Luquinhas como haviam guiado a sua. Peraltinha e Pitoco, agora no jardim, ergueram os olhos para o mesmo ponto no céu, como se reconhecessem os velhos amigos.
Márcia, que entrara na sala em silêncio, observou a cena e enxugou uma lágrima. Ela não conhecia toda a história, mas sentia, como Manoel, que algo maior os unia. Luquinhas, ainda no abraço do pai, murmurou:
— Pai, acha que a estrelinha Manoel tá feliz lá em cima?Manoel sorriu, olhando para o céu. — Tá, sim, meu filho. E ele tá orgulhoso de você, por contar a história dele.
Naquela noite, enquanto Luquinhas dormia no quarto temático, com Peraltinha e Pitoco aninhados em suas caminhas, Manoel sentou-se com Márcia na varanda. Ele segurou a mão dela, apontando para as quatro estrelas que brilhavam no céu. “Elas ainda tão aqui, Márcia. E, de alguma forma, sempre vão estar.” Márcia assentiu, sentindo que a casa, o quarto, a família e até as palavras de Luquinhas eram parte de um legado que atravessava o tempo, iluminado por uma bondade que nunca se apagaria.
Próximo Capítulo: O jovem Lucas conhece a história de Manoel, o mendigo que virou ser de luz. Surge Manoelzinho, o gatinho que pedia e retribuía amor.
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