Manoel, o ser de luz. Quinto capítulo: Lucas, o menino que via além das estrelas.

    Uma noite quente de verão abraçava Ipanema, e a casa de Manoel, agora um escritor consagrado, estava tranquila, cheia dos sons suaves de uma família em harmonia. No quarto temático, com suas estrelas pintadas no teto, Manoel corrigia um manuscrito, a caneta dançando sobre o papel, guiada, como sempre, por uma sensação de que outra mão, invisível, o acompanhava. Márcia, sua esposa, tricotava na sala, enquanto seus dois filhos dormiam — ou pelo menos era o que ele pensava. No jardim, Peraltinha, o gatinho de olhos brilhantes, e Pitoco, o cachorrinho de latidos alegres, brincavam sob a luz da lua.
 De repente, a vozinha ansiosa de Luquinhas, seu filho de apenas cinco anos, cortou o silêncio. “Pai! Vem ver uma coisa! Vem rápido!” O tom de urgência infantil fez Manoel largar a caneta e correr até o quarto que um dia fora seu, onde Luquinhas estava com o nariz colado na janela, os olhos arregalados de encantamento. Peraltinha e Pitoco, os filhotes que enchiam a casa de vida, estavam no jardim, mas não brincavam como de costume. Manoel parou ao lado do filho, curioso, e Luquinhas, apontando com o dedinho trêmulo, exclamou:
— Olha, pai! O Peraltinha tá olhando pro céu e botando as duas patinhas da frente juntas, parece que tá de pé! O Pitoco não para de olhar pro céu!
 Manoel olhou pela janela e viu a cena que parecia tirada de um sonho. Peraltinha, com seu pelo malhado reluzindo sob a luz da lua, estava erguido nas patas traseiras, as dianteiras unidas como em uma prece silenciosa, os olhos fixos em um ponto no céu. Ao seu lado, Pitoco, com o rabo parado e o focinho erguido, encarava o mesmo lugar, imóvel, como se hipnotizado. No céu, quatro estrelas brilhavam com uma intensidade que parecia pulsar, destacando-se entre as outras — Manoel, Biriba, Bituca e Assad, juntos, como guardiões eternos.

Manoel sentiu um arrepio, como se o passado e o presente se entrelaçassem. Ele ajoelhou-se ao lado de Luquinhas, envolvendo-o com um braço, e apontou para o céu.
 
Filho, tá vendo aquelas quatro estrelinhas lá em cima?
Luquinhas assentiu, os olhos brilhando de curiosidade.
—Tô vendo! É por causa delas que eles não param de olhar?
— Pode ser, sim, meu filho — respondeu Manoel, com um sorriso que misturava ternura e saudade. Ele não sabia como explicar ao menino a história do mendigo, do gato, do cão e do gênio, mas sentia, no fundo da alma, que aquelas estrelas eram mais do que luzes distantes.
  Luquinhas franziu o cenho, como se processasse algo maior que sua idade permitia.
—Pai? Cachorro e gato têm Papai do Céu, também?
   Manoel ficou pensativo, olhando novamente para Peraltinha e Pitoco, que continuavam em sua “oração” silenciosa, como se rendessem homenagem às estrelas. Ele respirou fundo, sentindo a mesma mão invisível que guiava sua escrita agora apertar seu coração.
— Eles têm, sim, meu filho — disse ele, a voz suave, mas firme. — Sabe por que eles vão embora da Terra mais cedo, Luquinhas?
   O menino balançou a cabeça, o olhar preocupado
.Num sei... nem quero saber!
  Manoel sorriu, puxando-o para um abraço. — Vai saber, sim, meu filho. Eles já nascem sabendo amar. A gente fica mais tempo porque demora a aprender, e tem gente que vai embora sem saber.    Luquinhas ficou em silêncio, os olhos brilhando com uma mistura de entendimento e aceitação. Ele olhou novamente para Peraltinha e Pitoco, ainda fixos no céu, e pareceu mais conformado, como se entendesse que a partida precoce de seus amigos peludos fazia parte de um ciclo maior. Ele segurou a mão do pai, apertando-a com força, e sussurrou: “Então eles vão encontrar as estrelinhas, né, pai?”Manoel assentiu, os olhos marejados. “Vão, sim, meu filho. E as estrelinhas vão cuidar deles, como sempre cuidaram da gente.”
 
No jardim, Peraltinha e Pitoco finalmente baixaram o olhar, como se tivessem concluído sua prece. O gatinho pulou para o colo de Luquinhas, ronronando, enquanto Pitoco abanava o rabo, encostando o focinho na perna de Manoel. No céu, as quatro estrelas pareciam brilhar ainda mais, como se Manoel, Biriba, Bituca e Assad sorrissem, felizes por verem o amor que plantaram continuar a florescer. Márcia, que observava tudo da porta, enxugou uma lágrima e juntou-se à família, sentindo que aquele momento, simples e profundo, era uma prova de que o amor, seja humano ou de quatro patas, sempre encontra um jeito de iluminar o mundo.

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