Manoel, o ser de luz. Quarto Capítulo: Manoelzinho se torna o escritor Manoel e Assad se torna a quarta estrela da Constelação de Amor.

  Anos se passaram, e Manoelzinho, agora um jovem de olhos gentis e coração pleno, cresceu no calor do lar que Thiago e Clarice lhe proporcionaram. O quarto temático, com suas estrelas pintadas no teto, tornou-se um refúgio de memórias e sonhos, onde ele passava horas escrevendo. Formado em literatura, Manoelzinho encontrou sua vocação contando histórias inspiradas em seus amiguinhos, Bituquinha — o cachorrinho chorão que crescera forte e brincalhão — e Biribinha — o gatinho esperto que enchia a casa com suas travessuras. Embora Bituquinha e Biribinha também tenham seguido o curso da natureza, deixando saudades, seus herdeiros — novos filhotes que pareciam carregar o mesmo espírito sapeca e leal — agora corriam pelo quintal, trazendo risos à casa.
 Cada história que Manoelzinho escrevia era um tributo aos seus companheiros. Ele criava contos sobre um cão valente que protegia os desamparados, um gato astuto que encontrava alegria nas pequenas coisas, e um menino que, mesmo sem nada, dava tudo de si para os outros. As crianças que liam suas histórias riam e se emocionavam, e cada sorriso arrancado delas era uma vitória para Manoelzinho. Ele sentia, sem saber explicar, que cada palavra que escrevia conectava-o a algo maior, como se uma luz invisível guiasse sua pena.
 Thiago e Clarice, agora com fios grisalhos e o coração cheio de orgulho, observavam o jovem se realizar. Numa noite, sentados na varanda enquanto Manoelzinho lia uma de suas histórias para um grupo de crianças da vizinhança, Clarice sussurrou:
— E tudo começou com aqueles dois bichos abandonados...
Thiago, olhando para o céu onde três estrelas pareciam brilhar com um fulgor especial, balançou a cabeça lentamente.
— Abandonados? Não, Clarice. Eu sempre pensei que aquele rapaz quase nu cuidava dos dois... E nosso menino, às vezes, reflete o olhar daquele coitado...
 Clarice segurou a mão do marido, seus olhos marejando ao perceber a verdade nas palavras dele. Manoelzinho, com sua bondade e sua habilidade de tocar corações através das histórias, parecia carregar o mesmo brilho que eles haviam sentido anos antes, quando Biriba e Bituca correram para a areia onde Manoel partira. Era como se o espírito daquele mendigo de Ipanema, que amara sem esperar nada em troca, vivesse nos olhos de Manoelzinho, em cada palavra que ele escrevia, em cada risada que suas histórias arrancavam.
 No céu, as três estrelas — Manoel, Biriba e Bituca — brilhavam em silêncio, como guardiãs de um legado que continuava a se desdobrar. Manoelzinho, sem saber da história completa, sentia uma conexão inexplicável com aquelas estrelas. Às vezes, quando terminava de escrever, ele olhava para o céu e murmurava um “obrigado”, como se soubesse que alguém, ou algo, velava por ele. E, no quarto temático, onde novos filhotes dormiam nas caminhas que um dia foram de Bituquinha e Biribinha, a luz das estrelas pintadas no teto parecia pulsar, como se Manoel, em sua forma celestial, sorrisse para a família que seu amor ajudara a criar.
Assad se torna a quarta estrela. O espírito de luz encontra o seu guardião.
 Décadas haviam se passado desde que Manoel ascendera como uma estrela em Ipanema, e Manoelzinho, o menino maltrapilho que encontrara um lar com Thiago e Clarice, agora era um homem adulto. Seus cabelos começavam a grisalhar, mas seus olhos ainda carregavam aquele brilho gentil, o mesmo que Thiago outrora notara, como se refletisse a alma de um certo mendigo das ruas. Manoelzinho tornara-se um escritor renomado, suas histórias sobre cães valentes, gatos astutos e meninos de coração puro encantando gerações. Ele era pai de dois filhos, que corriam pelo quintal com os herdeiros de Bituquinha e Biribinha — novos filhotes que, como seus antecessores, pareciam carregar um pouco da magia de Ipanema. A casa, ainda com o quarto temático e suas estrelas pintadas no teto, era cheia de risos e amor, um lar que Manoelzinho nunca imaginara possível em seus dias de fome e solidão.
  
Numa noite de verão, enquanto Manoelzinho caminhava pela praia de Ipanema com seus filhos dormindo em casa, ele tropeçou em algo meio enterrado na areia, próximo ao mesmo lugar onde, anos atrás, Biriba e Bituca haviam prestado seu adeus. Era uma garrafa de vidro trabalhado, com detalhes entalhados e um brilho esverdeado que parecia pulsar com vida. Sem saber por quê, Manoelzinho sentiu um arrepio, como se o objeto o chamasse. Ele a pegou, limpando a areia com cuidado, e, num gesto instintivo, destampou a garrafa.
   
Uma fumaça roxa irrompeu, e dela emergiu Assad, o gênio outrora príncipe de Argel. Sua figura imponente, envolta em vestes de seda e luz, parecia cansada, mas seus olhos brilharam ao ver Manoelzinho. Por um instante, o gênio ficou em silêncio, como se reconhecesse algo familiar naquele homem. Manoelzinho, por sua vez, sentiu uma conexão profunda, como se já conhecesse aquele ser de outro tempo. Ele olhou nos olhos de Assad e, de repente, imagens fragmentadas vieram à sua mente — um mendigo quase nu, um gato cinza, um cão de orelhas tortas, uma praia à noite. Não eram memórias suas, mas pareciam pertencer a ele.
— Quem és tu? — perguntou Assad, a voz grave carregada de curiosidade.
— Sou Manoel — respondeu ele, com um sorriso sereno. — Manoelzinho, como me chamaram. E acho que você conheceu alguém que me guiou até aqui.
   Assad arregalou os olhos, percebendo a conexão. O brilho nos olhos de Manoelzinho era o mesmo de Manoel, o mendigo que ensinara ao gênio o que era a verdadeira bondade. Antes que Assad pudesse falar, Manoelzinho continuou, sua voz firme, mas cheia de gratidão:
— Pra mim? Não desejo nada, porque já tenho tudo. Uma família, um lar, histórias que alegram o mundo. Mas é para você que quero pedir. Que a milenar maldição que te prende se quebre, e que encontres quem me guiou até aqui. Diga a ele, por nós dois, um obrigado.
  Assad sentiu um peso milenar se dissolver em seu peito. As palavras de Manoelzinho, tão puras quanto as de Manoel, ecoavam o mesmo altruísmo que o marcara anos atrás. O gênio ergueu as mãos, e a garrafa, que por séculos fora sua prisão, começou a tremeluzir. Uma luz dourada, diferente de qualquer magia que Assad conhecera, envolveu o objeto, e, com um som suave como o vento, a garrafa se desfez em pó brilhante, levado pela brisa do mar. A maldição, tocada pela bondade de Manoelzinho e pelo legado de Manoel, finalmente se quebrara.
 
No céu, as três estrelas — Manoel, Biriba e Bituca — brilharam com uma intensidade que fez Manoelzinho erguer o rosto. Assad, agora livre, sentiu-se puxado para o alto, não como um prisioneiro, mas como um espírito liberto. Ele ascendeu, e lá, entre as estrelas, encontrou Manoel, ainda em sua forma de luz, com Biriba e Bituca ao seu lado. Assad sorriu, algo que não fazia há eras, e disse:
— Manoel, seu menino cresceu. Ele me libertou, como você me ensinou a enxergar a bondade. Por nós dois, eu digo: obrigado.
 Manoel, com um brilho que parecia abraçar o universo, apenas acenou, como se soubesse que seu legado estava completo. Uma presença maior, talvez Alá, talvez Deus, envolveu os quatro — Manoel, Biriba, Bituca e Assad — em um abraço de luz, como se o céu celebrasse a união de almas que, juntas, provaram que o amor desinteressado pode romper até as maldições mais antigas.
 Na praia, Manoelzinho voltou para casa, o coração leve. Ele não sabia da extensão do que acontecera, mas, ao olhar para o céu, viu as três estrelas brilharem ainda mais, agora acompanhadas por uma quarta, sutil, mas constante. Ele sorriu, sentindo que, de alguma forma, tudo estava em seu lugar. Em casa, seus filhos dormiam, os novos filhotes ronronavam e latiam baixinho, e o quarto temático parecia pulsar com a memória de um amor que atravessava gerações.
Manoel escrevia sentindo outra mão o guiando.
 Manoelzinho, agora simplesmente Manoel, o escritor, vivia uma vida plena ao lado de sua esposa, Márcia, e seus dois filhos. Suas histórias, inspiradas nos herdeiros de Bituquinha e Biribinha e nas memórias de um passado que ele não explicava completamente, continuavam a encantar leitores pelo mundo. Ele escrevia no mesmo quarto temático onde crescera, com as estrelas pintadas no teto que ainda pareciam brilhar com uma luz própria. Os novos filhotes — um gatinho de olhos curiosos e um cachorrinho de latidos alegres — dormiam em suas caminhas, enquanto Manoel, com a caneta na mão, deixava as palavras fluírem.
 Certa noite, enquanto trabalhava em uma nova história sobre um menino que encontrava esperança nas ruas, Manoel parou, a mão suspensa sobre o papel. Ele sentiu algo — uma presença suave, quase imperceptível, como se outra mão repousasse sobre a sua, guiando a caneta com uma delicadeza que ele conhecia, mas não podia nomear. Ele sorriu, olhando para Márcia, que lia um livro no canto do quarto.
— Engraçado, meu amor — disse ele, com um tom leve, quase brincalhão. — Tem vezes que percebo outra mão em cima da minha, como se alguém quisesse escrever em meu lugar. Isso é desde a infância... hahahá... coisa de bobo, mesmo!
Márcia ergueu os olhos, um sorriso carinhoso iluminando seu rosto. Ela se aproximou, pousando a mão no ombro dele.
— Meu amor, você é tão sensível! — respondeu ela, com ternura. — Talvez sejam as estrelas te guiando, ou quem sabe aquele menino que você carrega no coração.
 M
anoel riu, mas seus olhos se voltaram para o teto, onde as estrelas pintadas pareciam pulsar. Lá fora, no céu de Ipanema, quatro estrelas brilhavam com uma intensidade que parecia responder ao seu olhar — Manoel, o mendigo, Biriba, Bituca e Assad, agora unidos como guardiões celestiais. Ele não sabia da história completa, mas, em seu coração, sentia que aquela mão invisível era de alguém que o amara antes mesmo de ele chegar ao mundo, alguém que o guiara desde as ruas até aquele momento de plenitude.
No quarto, os filhotes se mexeram nas caminhas, como se sonhassem com aventuras ao lado de Manoelzinho. Seus filhos dormiam em outro quarto, e Márcia, ao lado de Manoel, sentia que a casa era mais do que um lar — era um santuário de amor, protegido por quatro estrelas que iluminavam não apenas Ipanema, mas todos os corações que, como Manoel outrora, precisavam de esperança. E, em cada palavra que Manoel escrevia, a mão invisível de seu homônimo parecia sussurrar: “Continue, meu menino. O amor sempre encontra um caminho.”
Próximo capítulo: Luquinhas, filho de Manoel Escritor, se emociona ao ver uma cena com seus animaizinhos. 


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