Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 2 - O recomeço em São Paulo e a perda do pai para a sharia.
No dia seguinte, Ahmad acordou no pequeno alojamento do aeroporto, o corpo ainda pesado, mas um pouco mais
descansado. Catarina voltou acompanhada de um representante do Ministério dos Direitos Humanos, um homem
de semblante sério e olhos frios. Alimentado com um café da manhã simples — pão, manteiga e um copo de leite
—, Ahmad sentia as forças voltando aos poucos, o suficiente para abrir o coração. Sentado em uma cadeira de
plástico, com Catarina ao seu lado como um porto seguro, ele começou a falar, a voz trêmula mas decidida.
"Eu me chamo Ahmad... Ahmad Yusuf. Eu me percebi diferente dos outros rapazes quando estava sempre olhando
para homens e não para mulheres, desejando os abraços e beijos deles e não delas. Eu me assustava com a
possibilidade de me casar com uma mulher, sentia uma sensação de vômito, náuseas mesmo, quando pensava em
enganar uma mulher!!!" As palavras saíam como um rio represado, e logo ele desabou em lágrimas, o rosto
escondido nas mãos. O funcionário do ministério, com um tom seco e desdenhoso, murmurou: "Gay fugindo..."
Catarina, indignada, cortou-o imediatamente. "Não sabe o que é ser gay no Iraque!!!" exclamou, os olhos faiscando
de empatia.
Ahmad respirou fundo e continuou, o olhar perdido em memórias agridoce. "Eu me encantei por um rapaz mais
velho, Ibrahim. Ele foi tão doce comigo... Ele conheceu papai, e meu pai o aceitou, sabendo do que eu era! ‘Se fazes o meu filho feliz, és bem-vindo!’, disse ele. Mas o vizinho do meu pai percebia a presença constante de Ibrahim em
nossa casa, nossos olhares cúmplices. O miserável passou a nos investigar e nos denunciou à polícia da Sharia!
Ibrahim foi morto a pauladas e eu... eu... escapei covardemente!" Sua voz falhou, e ele baixou a cabeça,
envergonhado. Catarina, com ternura, colocou a mão em seu ombro. "Você não é covarde, menino!" ponderou,
tentando aliviar o peso que ele carregava.
O funcionário, impassível, cruzou os braços e declarou: "Vou conceder asilo temporário ao rapaz. Ele terá que
conseguir trabalho formal em três meses. É isto ou é deportação!" Sua frieza contrastava com o calor de Catarina,
que sorriu para Ahmad. "Vamos conseguir, Ahmad! Vou te ensinar o básico do português e você vai conseguir seu
trabalho. São Paulo é imensa e cheia de possibilidades!" disse ela, tornando-se, naquele momento, o novo anjo da
guarda do jovem.
Em um mês, Ahmad já arranhava as primeiras palavras em português, aprendendo com uma facilidade
impressionante. "Obrigado", "por favor", "trabalho" — ele repetia as palavras com Catarina, que o incentivava com
paciência e orgulho. No segundo mês, veio a boa notícia: um trabalho noturno na carga e descarga de uma rede de
supermercados. Com o registro de emprego formal em mãos, Ahmad conseguiu o asilo temporário anual, que
deveria renovar periodicamente. Em quatro meses, ele falava português quase como um brasileiro, com um sotaque
leve que encantava quem o ouvia. O carisma e o esforço lhe renderam o apelido de "Turquinho" entre os colegas —
para os paulistanos populares, todo mundo do Oriente Médio era "turco". O rapaz mirrado que chegara em São
Paulo começava a ganhar um porte físico mais saudável, os ombros mais largos, o rosto menos encovado. Tudo
parecia correr bem. Com o salário modesto, ele comprou um celular simples e trocava e-mails com seu pai, Hamed,
mantendo um fio de esperança que o conectava a Bagdá.
Mas, numa noite qualquer, enquanto descansava após o turno, o mundo de Ahmad desabou novamente. Um e
mail de seu tio, Osnar, chegou pelo endereço de Hamed. A mensagem era curta e devastadora: seu pai fora
capturado pela Sharia, acusado de esconder e salvar "um impuro desviado" — Ahmad. A pena? Capital. Hamed
estava morto. Ahmad leu as palavras uma, duas, três vezes, até que o celular escorregou de suas mãos trêmulas e
caiu no chão. Ele desmoronou, os soluços ecoando no quartinho alugado onde vivia.
No dia seguinte, no supermercado, os colegas notaram o "Turquinho" diferente. Ele, que sempre chegava com um
sorriso tímido e um "boa noite" animado, estava cabisbaixo, os olhos vermelhos. Quando desabou em lágrimas no
meio do turno, os funcionários correram para consolá-lo. "Que houve, Turquinho?" perguntou um deles, a voz cheia de preocupação. "Meu... pai... morreu por mim..." respondeu Ahmad, as palavras saindo entre soluços. O clima no
mercado virou desolação. Alguns colegas, emocionados, choravam junto com ele, enquanto outros apenas
baixavam a cabeça, sem saber o que dizer.
De repente, Ahmad explodiu, a raiva e a dor transbordando. "EU NÃO QUERO MAIS SER IRAQUIANO! MERDA DE
PAÍS QUE QUER ME MATAR!!!" gritou, repetindo as palavras várias vezes, o punho cerrado batendo no ar. O silêncio
que se seguiu foi pesado, cortado apenas pelo som de seu choro. A gerência, sensibilizada, dispensou o
"Turquinho" do trabalho naquela noite e lhe deu três dias de folga para assimilar o luto. Ele voltou para casa, o
coração em frangalhos, carregando a culpa de ter sido a causa da morte do pai que tanto o amara. No
supermercado, o clima permaneceu triste por dias, como se todos carregassem um pedaço da dor do "Turquinho",
o jovem que persistia em viver, mesmo quando o mundo parecia decidido a destruí-lo.
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