Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 1 - A fuga do inferno em Bagdá
Ahmad estava ofegante, o peito subindo e descendo em espasmos enquanto se escondia dentro de sua casa, na
periferia de Bagdá. O ar estava denso, carregado de poeira e um medo que parecia sufocá-lo. Lá fora, os gritos dos
militantes da Sharia cortavam o silêncio, misturados ao tropel das botas dos militares que o perseguiam. Seu crime
não era um ato, mas sua própria existência: Ahmad era gay, uma identidade que, naquele canto opressivo do
Iraque, era sinônimo de morte. Ele e Ibrahim, seu namorado, haviam sido traídos. Sued, alguém que Ahmad
considerava um amigo, os entregara às garras da intolerância. A memória daquele momento fatal ainda ardia em
sua mente: os olhos arregalados de Ibrahim, o suor escorrendo por seu rosto enquanto o empurrava com força.
"Fuja, Ahmad, fuja! Não sucumba como Mufahed, pelo amor de Alá!!!" gritara Ibrahim, a voz rouca, quebrada pelo
desespero. "Eu encaro eles! Fuja por nós!"
Ahmad correu, as pernas trêmulas, o coração disparado como se fosse explodir no peito. Atrás dele, os gritos de
Ibrahim se transformaram em uivos de agonia. A turba de fanáticos o cercara, e o som das pauladas ressoava como
trovões, cada golpe um martelo contra a alma de Ahmad, mesmo estando tão longe. Ele corria como um carneiro
fugindo de um lobo faminto, os pulmões em chamas, as lágrimas embaçando a visão. Ibrahim estava morto. Morto
por amá-lo. E Ahmad, em sua fuga desesperada, sentia o peso da covardia esmagá-lo como uma pedra. Ao chegar
em casa, desabou de joelhos no chão, o corpo exausto, a alma em pedaços. Hamed, seu pai, surgiu na porta, o
rosto enrugado de preocupação ao ver o filho naquele estado. "Ahmad, o que aconteceu? Estás pálido como um
fantasma!" perguntou, a voz carregada de angústia. Ahmad, com os olhos vermelhos e as palavras saindo aos
tropeços, desabafou: "Pegaram... a Sharia... Sued nos entregou, tenho certeza... Ibrahim está MORTO! COMO MEU
PRIMO MUFAHED!!! OS GRITOS DELE ME CONSOMEM... EU FUI COVARDE! TIVE MEDO DA SHARIA!!!" Ele soluçava,
o corpo tremendo como o de uma criança encurralada, enquanto Hamed o ouvia em silêncio, o coração apertado.
Hamed sabia da homossexualidade do filho e, em segredo, a aceitava. Mas também sabia que viver como gay no
Iraque, sob o jugo da Sharia, era como carregar uma bomba-relógio. Por anos, ele tentara, com um desespero
silencioso, conseguir asilo humanitário para Ahmad na Europa ou nos Estados Unidos, mas todas as portas se
fechavam, uma após a outra. Agora, com a morte de Ibrahim e a caçada implacável atrás de seu filho, Hamed
tomou uma decisão que lhe partia o coração. Ajoelhou-se diante de Ahmad, segurou seu rosto com mãos firmes e
calejadas e disse: "Você vai embarcar clandestinamente para o Brasil. Hoje mesmo! No compartimento de cargas.
Depressa, é a única solução imediata!" Ahmad, atordoado, apenas assentiu, o medo sufocando qualquer resistência.
Horas depois, no aeroporto, Hamed o abraçava pela última vez, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto via o filho
desaparecer rumo a um destino incerto. Ele ficou ali, sozinho, aos prantos, um pai despedaçado, com o peso de não
poder proteger Ahmad como gostaria.
O voo foi uma eternidade de escuridão e frio. Ahmad, escondido entre caixas no porão de carga, tremia tanto de
medo quanto de hipotermia. Os cobertores que Hamed lhe arrumara mal davam para aquecê-lo. O ronco dos motores era seu único companheiro, um som que abafava os ecos dos
gritos de Ibrahim que ainda ressoavam em sua mente. Quando o avião pousou em São Paulo, ele era um jovem de
17 anos com os olhos arregalados de pavor, o corpo encolhido como o de um animal acuado. Os funcionários da
LATAM, ao abrir o compartimento para o desembarque, deram de cara com ele. "Meu Deus, tem um garoto aqui!"
exclamou um deles, a voz carregada de choque, enquanto outro corria para chamar a Polícia Federal. Ahmad, sem
entender uma palavra em português, encolhia-se ainda mais, os braços envolvendo os joelhos, tentando se aquecer nos cobertores, o olhar perdido em um vazio que o engolia.
Os policiais o levaram para uma sala fria e cinzenta no aeroporto. Tentavam decifrar sua língua, falando em
português, depois em inglês, até que alguém sugeriu: "Chamem a Catarina, ela fala árabe." Catarina, uma intérprete
de meia-idade com olhos gentis, entrou na sala e se aproximou lentamente do jovem. "Qual o seu nome, rapaz?"
perguntou em árabe, a voz calma tentando atravessar o muro de terror que o envolvia. "Ahmad... eu... eu... fugi do
inferno!" respondeu ele, as palavras saindo entrecortadas, os dedos apertando a própria camisa como se quisesse
se ancorar em algo sólido. Catarina sentiu um nó na garganta ao ver o desespero cravado nos olhos dele. "O que
aconteceu, Ahmad?" insistiu, com suavidade. "Eu... escapei... mataram Ibrahim..." Ele mal conseguia formar frases, o
trauma ainda fresco, sangrando em cada sílaba, como uma ferida que se recusava a fechar.
"Vamos, Ahmad, você está com amigos aqui," disse Catarina, pousando uma mão leve em seu ombro, um gesto
pequeno mas carregado de humanidade. Ela o guiou até um alojamento modesto para refugiados dentro do
aeroporto, um quarto pequeno com uma cama simples e paredes brancas. "Durma, rapaz. Amanhã eu trago o
representante do Ministério dos Direitos Humanos e a gente conversa melhor. Agora durma e relaxe," instruiu ela,
tentando transmitir uma segurança que Ahmad ainda não podia sentir. Ele deitou-se, o corpo exausto, mas os olhos
permaneciam abertos, fixos no teto. Respirava um pouco mais aliviado, mas a tensão ainda o dominava, misturada
ao peso do que deixara para trás e à incerteza do que o aguardava. O silêncio do quarto era interrompido apenas
pelo som de sua própria respiração, um eco distante dos gritos de Ibrahim e de Mufahed que ainda reverberavam
em sua mente, transtornada pela tortura e morte de quem ousava amar. Ahmad persistia, mesmo em terras onde
sua natureza não era aceita, carregando o fardo de ser quem era — um sobrevivente marcado pelo amor e pela
perda.
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