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Mostrando postagens de 2025

Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 3 - O peso do destino, os casamentos e as tristezas.

  O Peso do Destino na Fazenda Santo André O céu sobre Barra Mansa amanheceu carregado, com nuvens escuras que pareciam ecoar o coração despedaçado de Alberto. Na igreja ornamentada para o casamento, o aroma de incenso misturava-se ao burburinho dos nobres que chegavam, suas vestes de seda e joias contrastando com a simplicidade do Vale do Paraíba. Yolanda de Bragança, a noiva, desceria do coche acompanhada do pai, o Conde Henrique, cuja presença imponente silenciava qualquer zombaria sobre seus cofres esvaziados. Para Henrique, aquele casamento era mais que uma união — era a última cartada para assegurar varões que perpetuassem o nome Bragança. Alberto, de fraque preto e olhos fundos, estava ao lado de Frederico na entrada da igreja. O pai, com um sorriso forçado, cumprimentava os convidados, mas não deixava de lançar olhares duros ao filho. — Endireita essa postura, Alberto! — sibilou Frederico, ajustando a gravata do rapaz. — Hoje tu te tornas um homem de verdade, ligado à reale...

Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 2 - Reginaldo e Alberto, o amor que não ousava dizer o nome.

 A Luz e a Sombra da Fazenda Santo André     O sol poente tingia de dourado as margens do rio Paraíba do Sul, onde a brisa sussurrava segredos entre os cafezais da Fazenda Santo André. Ali, sob a sombra de um velho ipê, Alberto e Reginaldo, agora homens de 25 anos, encontravam refúgio. Seus olhares se cruzavam com uma cumplicidade que transcendia o mundo ao redor, um laço forjado na infância, quando corriam juntos pelas trilhas da fazenda, e agora selado por algo mais profundo, mais perigoso. Alberto, o herdeiro de Frederico, era um rapaz de ombros largos e mãos calejadas, um reflexo do avô Augusto que ele mal conhecera, mas cujo espírito parecia viver em seu peito. Reginaldo, filho de Teobaldo e Ana Preta, tinha a beleza que fazia os outros pararem para olhar, com olhos que guardavam a força de quem sabia o peso da senzala. Juntos, eram como duas metades de um mesmo coração, inseparáveis apesar das barreiras que Frederico tentava impor.   Na infância, o...

Dramas, Segredos e Dores da Família Pereira - Capítulo 1 - A fundação da fazenda Santo André e os conflitos entre pai e filho.

  A Saga da Fazenda Santo André O sol escaldante do Vale do Paraíba, na virada do século XVIII para o XIX, banhava as plantações de café da Fazenda Santo André. O aroma dos grãos torrados misturava-se ao suor de Augusto Pereira, um homem de pele queimada pelo sol, olhos fundos de quem carregava segredos e mãos calejadas que contavam a história de uma vida de luta. Ele, um cristão-novo, fugido das garras da Inquisição em Lisboa, encontrara naquelas terras virgens uma chance de recomeçar. Não como senhor, mas como um irmão entre os que trabalhavam ao seu lado.  Na varanda da casa que um dia fora um casebre, Augusto enxugava o suor da testa, observando Magnólia e Estevão, o casal de pretos que comprara anos atrás, mas que agora eram mais do que isso — eram família. Magnólia, com sua força serena, organizava os grãos colhidos, enquanto Estevão, de riso fácil, carregava sacas com a energia de quem sabia que o trabalho era também um ato de liberdade. — Augusto, olha só esses ...

Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 5 ( Final ) - O Candomblé e a identidade definitiva de Turquinho de Omolu

    Buscando paz espiritual, Francisco aceitou o convite de Catarina para visitar uma casa de candomblé, a Casa de Ana de Yansã. Lá, ele se viu imediatamente envolvido pela energia vibrante da festa dedicada à dona da casa. Yansã dançava em seu traje vistoso de vermelho e branco, o adê acobreado reluzindo sob as luzes, uma visão que fascinava Francisco. Mas o que verdadeiramente o arrebatou foi a chegada de Oxóssi, o orixá da caça e dos animais. O som do agueré, o ritmo pulsante que anunciava sua presença, parecia chamá-lo como um eco ancestral. Oxóssi manifestou-se em Armando, um bodybuilder de corpo esculpido, cuja força e graça ao dançar possuído pelo orixá pareciam quase divinas aos olhos de Francisco. Durante o jantar da festa, os olhares de Francisco e Armando se cruzaram, acompanhados de sorrisos tímidos que carregavam uma promessa silenciosa. "Achei tão lindo a dança de teu orixá!" disse Francisco, a voz cheia de admiração. Armando, com um leve sorriso vaidoso...

Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 4 - O encontro com o amor e Omolu acolhe seu filho.

    Buscando paz espiritual, Francisco aceitou o convite de Catarina para visitar uma casa de candomblé, a Casa de Ana de Yansã. Lá, ele se viu imediatamente envolvido pela energia vibrante da festa dedicada à dona da casa. Yansã dançava em seu traje vistoso de vermelho e branco, o adê acobreado reluzindo sob as luzes, uma visão que fascinava Francisco. Mas o que verdadeiramente o arrebatou foi a chegada de Oxóssi, o orixá da caça e dos animais. O som do agueré, o ritmo pulsante que anunciava sua presença, parecia chamá-lo como um eco ancestral. Oxóssi manifestou-se em Armando, um bodybuilder de corpo esculpido, cuja força e graça ao dançar possuído pelo orixá pareciam quase divinas aos olhos de Francisco.     Durante o jantar da festa, os olhares de Francisco e Armando se cruzaram, acompanhados de sorrisos tímidos que carregavam uma promessa silenciosa. "Achei tão lindo a dança de teu orixá!" disse Francisco, a voz cheia de admiração. Armando, com um leve so...

Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 3 - "Eu vou ser um BRASILEIRO!"

   Ahmad, agora com o coração endurecido pelas perdas, encontrou um novo propósito: arrancar de si todas as características culturais que o ligassem ao Iraque, o país que ele via como um monstro devorador de tudo o que amava. Ele estava obstinado em conquistar a nacionalidade brasileira, em apagar as marcas de um passado que o sufocava. Procurou Catarina, sua salvadora de olhos gentis, e despejou seu anseio com uma mistura de raiva e súplica. "Me tiraram amor, me tiraram casa, me tiraram futuro e agora tiraram meu pai! Por que vou querer ser cidadão deste monstro chamado Iraque? Catarina, me diga o que preciso para ser um brasileiro! Além, é claro, de um fonoaudiólogo competente, para tirar de mim este sotaque MALDITO!!!" implorava ele, os olhos marejados, mas a voz firme como nunca.    Catarina, com sua calma habitual, segurou as mãos dele e prometeu guiá-lo. O processo de nacionalização foi um caminho árduo, cheio de burocracia, papéis e espera, mas Ahmad —...

Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 2 - O recomeço em São Paulo e a perda do pai para a sharia.

  No dia seguinte, Ahmad acordou no pequeno alojamento do aeroporto, o corpo ainda pesado, mas um pouco mais descansado. Catarina voltou acompanhada de um representante do Ministério dos Direitos Humanos, um homem de semblante sério e olhos frios. Alimentado com um café da manhã simples — pão, manteiga e um copo de leite —, Ahmad sentia as forças voltando aos poucos, o suficiente para abrir o coração. Sentado em uma cadeira de plástico, com Catarina ao seu lado como um porto seguro, ele começou a falar, a voz trêmula mas decidida. "Eu me chamo Ahmad... Ahmad Yusuf. Eu me percebi diferente dos outros rapazes quando estava sempre olhando para homens e não para mulheres, desejando os abraços e beijos deles e não delas. Eu me assustava com a possibilidade de me casar com uma mulher, sentia uma sensação de vômito, náuseas mesmo, quando pensava em enganar uma mulher!!!" As palavras saíam como um rio represado, e logo ele desabou em lágrimas, o rosto escondido nas mãos. O f...

Turquinho de Omolu - O Iraquiano que adotou o Brasil como lar. Cap 1 - A fuga do inferno em Bagdá

  Ahmad estava ofegante, o peito subindo e descendo em espasmos enquanto se escondia dentro de sua casa, na periferia de Bagdá. O ar estava denso, carregado de poeira e um medo que parecia sufocá-lo. Lá fora, os gritos dos militantes da Sharia cortavam o silêncio, misturados ao tropel das botas dos militares que o perseguiam. Seu crime não era um ato, mas sua própria existência: Ahmad era gay, uma identidade que, naquele canto opressivo do Iraque, era sinônimo de morte. Ele e Ibrahim, seu namorado, haviam sido traídos. Sued, alguém que Ahmad considerava um amigo, os entregara às garras da intolerância. A memória daquele momento fatal ainda ardia em sua mente: os olhos arregalados de Ibrahim, o suor escorrendo por seu rosto enquanto o empurrava com força. "Fuja, Ahmad, fuja! Não sucumba como Mufahed, pelo amor de Alá!!!" gritara Ibrahim, a voz rouca, quebrada pelo desespero. "Eu encaro eles! Fuja por nós!"    Ahmad correu, as pernas trêmulas, o coração dispar...

Manoel, o ser de luz. Décimo Segundo e último Capítulo. Miqueias e Juvenal se tornam uma dupla de sucesso na internet.

  O Abrigo Estrelinha, com seu quintal repleto de miados e o jazigo de Manoelzinho brilhando com a constelação de cinco estrelas — Manoel, Biriba, Bituca, Assad e Manoelzinho —, continuava a ser um farol de esperança em São Paulo. Miqueias, agora com 8 anos, havia se tornado o coração do abrigo, guiado por Juvenal, o gatinho de pelo branquinho e miado rouco, “mrau, mrau”, e por Pelúcia, o cachorrinho reencontrado que passava tardes semanais com ele. A ceia de Natal e a Feira de Adoções “Anjinho Manoel” haviam consolidado o abrigo como um símbolo de amor, apoiado por uma fabricante de rações que via no trabalho de Lucas, Amaraliz e Miqueias uma história digna de ser compartilhada.  Um dia, o representante da marca de rações, impressionado com a energia de Miqueias e a conexão entre ele, Juvenal e Pelúcia, viu neles um potencial único. “Essa história de amor e superação pode tocar o mundo,” disse ele a Lucas e Amaraliz, propondo uma campanha publicitária inclusiva. Uma agência f...